Quem será o "Banco Central Digital"? Circle enviou a solicitação com Arc

Autor: David, Deep潮 TechFlow

Tradutor: @mangojay09, Yujian Web3

Em 12 de agosto, exatamente no mesmo dia em que divulgou seu primeiro relatório financeiro após o lançamento, a Circle lançou uma bomba: @arc, uma blockchain L1 criada especificamente para finanças de stablecoins.

Se você apenas olhar os títulos das notícias, pode pensar que é mais uma história comum de uma blockchain pública.

Mas ao colocá-la na trajetória dos últimos sete anos da Circle, você perceberá:

Não é uma blockchain pública, é uma declaração de território sobre uma “banco digital”.

Tradicionalmente, o banco central tem três funções principais: emitir moeda, gerenciar o sistema de pagamentos e liquidações, e formular a política monetária.

A Circle está avançando passo a passo na reprodução digital — primeiro conquistando o “direito de cunhagem” com USDC, depois construindo um sistema de liquidação com Arc, e talvez, no próximo passo, formulando políticas de moeda digital.

Isso não diz respeito apenas a uma empresa, mas à redistribuição do poder monetário na era digital.

A evolução do banco central da Circle

Em setembro de 2018, quando a Circle e a Coinbase lançaram o USDC juntos, o mercado de stablecoins ainda era dominado pela Tether.

A Circle escolheu um caminho que parecia “desajeitado” na época: máxima conformidade.

Primeiro, enfrentou ativamente as regulamentações mais rigorosas, tornando-se uma das primeiras empresas a obter a BitLicense de Nova York. Essa licença, considerada a mais difícil de obter no setor de criptomoedas globalmente, tinha um processo tão complicado que fez muitas empresas desistirem.

Segundo, não optou por lutar sozinho, mas se uniu à Coinbase para criar a aliança Centre — compartilhando riscos regulatórios e acessando uma vasta base de usuários da Coinbase, fazendo o USDC nascer sob os auspícios de um gigante.

Terceiro, elevou ao máximo a transparência das reservas: divulgando mensalmente auditorias feitas por firmas de contabilidade, garantindo que o respaldo fosse 100% em dinheiro e títulos do Tesouro dos EUA de curto prazo, sem envolver notas comerciais ou ativos de alto risco. Essa estratégia “excelente estudante” foi mal vista inicialmente — na época de crescimento selvagem entre 2018 e 2020, o USDC era considerado “muito centralizado” e seu crescimento lento.

O ponto de virada veio em 2020.

A explosão do DeFi no verão de 2020 impulsionou a demanda por stablecoins, e mais importante, fundos de hedge, market makers e empresas de pagamento começaram a entrar no mercado, fazendo com que as vantagens regulatórias do USDC se tornassem evidentes.

De uma circulação de 1 bilhão de dólares, para 42 bilhões, e agora atingindo 65 bilhões de dólares, a curva de crescimento do USDC é quase vertical.

Em março de 2023, o Silicon Valley Bank quebrou, e a Circle tinha US$ 3,3 bilhões em reservas depositadas lá. O USDC momentaneamente descolou do dólar, caindo para US$ 0,87, e o pânico se espalhou rapidamente.

O resultado desse “teste de resistência” foi que o governo dos EUA, por precaução sistêmica, garantiu integralmente os depósitos de todos os clientes do Silicon Valley Bank.

Embora não fosse uma ajuda exclusiva à Circle, esse evento fez a empresa perceber que apenas ser emissora não basta; é preciso controlar mais infraestrutura para realmente dominar seu destino.

E o que realmente despertou essa sensação de controle foi a dissolução da aliança Centre. Isso expôs a “dilema do trabalhador” da Circle.

Em agosto de 2023, a Circle e a Coinbase anunciaram a dissolução da aliança Centre, com a Circle assumindo totalmente o controle do USDC. À primeira vista, parecia uma conquista de independência; mas o preço foi alto: a Coinbase passou a receber 50% da receita de reservas do USDC.

O que isso significa? Em 2024, a Coinbase obteve US$ 910 milhões de receita com o USDC, um aumento de 33%. Enquanto isso, a Circle pagou mais de US$ 1 bilhão em custos de distribuição, grande parte direcionada à Coinbase.

Em outras palavras, a Circle, que trabalhou duro para fazer o USDC crescer, precisa dividir metade do lucro com a Coinbase. É como se o banco central imprimisse dinheiro, mas entregasse metade do seigniorage ao banco comercial.

Além disso, a ascensão do Tron trouxe uma nova perspectiva de lucro para a Circle.

Em 2024, o Tron processou US$ 5,46 trilhões em transações de USDT, com mais de 2 milhões de transferências diárias, obtendo uma receita significativa de taxas apenas com infraestrutura de transferências — uma estratégia de lucro mais upstream e estável do que a emissão de stablecoins.

Especialmente com a expectativa de queda de juros pelo Federal Reserve, a receita de juros de stablecoins tradicionais deve encolher, enquanto as taxas de infraestrutura podem manter um crescimento relativamente estável.

Isso serve de alerta para a Circle: quem controla a infraestrutura, consegue cobrar impostos continuamente.

Assim, a Circle iniciou sua transformação para construir infraestrutura, com múltiplos focos:

  • Circle Mint permite que clientes empresariais criem e resgatem USDC diretamente;

  • CCTP (Protocolo de Transferência Cross-Chain) possibilita a transferência nativa de USDC entre diferentes blockchains;

  • Circle APIs oferece um pacote completo de integração de stablecoins para empresas.

Até 2024, a receita da Circle atingiu US$ 1,68 bilhão, e sua estrutura de receita começou a se diversificar — além dos juros de reserva tradicionais, cada vez mais proveniente de taxas de API, serviços cross-chain e serviços corporativos.

Essa mudança foi confirmada no relatório financeiro recente da Circle:

Os dados mostram que, no segundo trimestre, a receita de assinaturas e serviços atingiu US$ 24 milhões, cerca de 3,6% do total (a maior parte ainda vem dos juros das reservas do USDC), mas cresceu 252% em relação ao mesmo período do ano passado.

De um negócio baseado apenas em juros de impressão de dinheiro, para um negócio diversificado de “aluguel de ativos”, com maior controle sobre o modelo de negócios.

A entrada do Arc é o momento de destaque dessa transformação.

O USDC, como gás nativo, não precisa de ETH ou outros tokens voláteis; sistema de solicitação de cotações de nível institucional, suporte a liquidação on-chain 24/7; confirmações de transação em menos de 1 segundo, com opções de privacidade de saldo e transações, atendendo às exigências regulatórias.

Essas funcionalidades parecem uma demonstração tecnológica de soberania monetária. O Arc é aberto a todos os desenvolvedores, mas as regras são definidas pela Circle.

Assim, de Centre a Arc, a Circle deu um salto triplo:

De uma emissão bancária privada, para o monopólio da emissão de moeda, até o controle de todo o sistema financeiro — e a velocidade dessa transição é impressionante.

E essa “sonho de banco digital” não é exclusividade da Circle.

Ambições semelhantes, caminhos diferentes

Na batalha pelos stablecoins em 2025, os principais players têm um “sonho de banco central”, mas com trajetórias distintas.

A Circle escolheu o caminho mais difícil, porém potencialmente mais valioso: USDC → blockchain Arc → ecossistema financeiro completo.

A Circle não quer apenas ser uma emissora de stablecoins, mas dominar toda a cadeia de valor — desde emissão de moeda até sistemas de liquidação, de pagamentos a aplicações financeiras.

O design do Arc reflete esse “pensamento de banco central”:

Primeiro, como ferramenta de política monetária, o USDC como gás nativo dá a Circle uma capacidade de ajuste semelhante a uma “taxa de referência”; segundo, como monopólio de liquidação, seu mecanismo de RFQ de câmbio institucional embutido força as transações de câmbio on-chain a passarem por seu sistema; por fim, o poder de definir regras, com Circle mantendo controle sobre atualizações do protocolo, podendo decidir quais funções ativar e quais comportamentos permitir.

O maior desafio aqui é a migração de ecossistema — como convencer usuários e desenvolvedores a deixarem o Ethereum?

A resposta da Circle é não migrar, mas complementar. Arc não pretende substituir o USDC na Ethereum, mas oferecer soluções para casos de uso que a blockchain atual não consegue atender. Por exemplo, pagamentos empresariais que exigem privacidade, negociações de câmbio instantâneas, aplicações on-chain com custos previsíveis.

É uma aposta arriscada. Se der certo, a Circle se tornará uma “Fed” da moeda digital; se fracassar, bilhões de dólares investidos podem ir por água abaixo.

A estratégia do PayPal é pragmática e flexível.

Em 2023, o PYUSD foi lançado na Ethereum, expandido para Solana em 2024, e em 2025 chegou à Stellar, além de recentemente cobrir a Arbitrum.

O PayPal não constrói sua própria blockchain, mas faz o PYUSD circular de forma flexível em múltiplos ecossistemas disponíveis, cada um servindo como canal de distribuição.

Na fase inicial de stablecoins, canais de distribuição são mais importantes que infraestrutura. Se você já tem uma rede de usuários, por que criar uma nova?

Primeiro, conquistar a mente e o uso dos consumidores, depois pensar na infraestrutura — afinal, a PayPal já tem 20 milhões de comerciantes.

A Tether funciona como uma “banco sombra” de fato no mundo cripto.

Praticamente não interfere no uso do USDT; uma vez emitido, é como dinheiro vivo, sua circulação é do mercado. Especialmente em regiões e casos de uso com regulamentação ambígua e KYC difícil, o USDT virou a única opção.

O fundador da Circle, Paolo Ardoino, afirmou em entrevista que o USDT serve principalmente mercados emergentes (como América Latina, África, Sudeste Asiático), ajudando usuários locais a contornar infraestrutura financeira ineficiente, funcionando mais como uma stablecoin internacional.

Com uma quantidade de pares de negociação na maioria das exchanges 3 a 5 vezes maior que a do USDC, a Tether criou uma rede de liquidez poderosa.

O mais interessante é a postura da Tether em relação às novas blockchains. Ela não constrói ativamente, mas apoia quem constrói. Como suporte a blockchains específicas de stablecoins, como Plasma e Stable. É como apostar, com um custo mínimo, na presença em diversos ecossistemas, esperando ver qual consegue se destacar.

Em 2024, o lucro da Tether ultrapassou US$ 10 bilhões, superando muitos bancos tradicionais; ela não usa esses lucros para criar sua própria cadeia, mas continua comprando títulos do Tesouro e Bitcoin.

A aposta da Tether é que, enquanto mantiver reservas suficientes e evitar riscos sistêmicos, sua inércia manterá o domínio do USDT na circulação de stablecoins.

Esses três modelos representam visões distintas para o futuro das stablecoins.

PayPal acredita que o usuário é rei. Com 20 milhões de comerciantes, a arquitetura técnica é secundária. Essa é a lógica da internet.

Tether aposta na liquidez. Enquanto o USDT continuar sendo a moeda de troca, tudo o mais é secundário. Essa é a lógica das exchanges.

E a Circle acredita que a infraestrutura é o caminho. Controlando a infraestrutura, controla o futuro. Essa é a lógica do banco central.

A razão dessa escolha talvez esteja na declaração do CEO da Circle, Jeremy Allaire, em depoimento ao Congresso: “O dólar está em uma encruzilhada, a competição pela moeda agora é uma competição tecnológica.”

A Circle enxerga não apenas o mercado de stablecoins, mas o controle do padrão do dólar digital. Se o Arc for bem-sucedido, pode se tornar o “Sistema de Reserva Federal” do dólar digital. Essa visão vale o risco.

2026, janela de tempo crucial

O prazo está se estreitando. Regulamentações avançam, a competição aumenta, e quando a Circle anunciou que o Arc entraria na rede principal em 2026, a reação inicial da comunidade cripto foi:

Muito lento.

Num setor que valoriza “iterações rápidas”, gastar quase um ano do teste à rede principal pareceu uma oportunidade perdida.

Mas, se você entender a situação da Circle, verá que esse prazo até que é razoável.

Em 17 de junho, o Senado dos EUA aprovou a Lei GENIUS. É o primeiro marco regulatório federal para stablecoins nos EUA.

Para a Circle, é uma confirmação esperada. Como uma das emissores mais conformes, a Circle já atende quase todos os requisitos da Lei GENIUS.

Em 2026, é o momento de essas regras entrarem em vigor e o mercado se adaptar às novas normas. A Circle não quer ser a primeira a arriscar, mas também não quer chegar tarde demais.

Clientes corporativos valorizam a certeza, e o Arc oferece exatamente isso — status regulatório definido, desempenho técnico garantido, modelo de negócio claro.

Se o Arc for lançado com sucesso, atraindo usuários e liquidez suficientes, a Circle consolidará sua liderança na infraestrutura de stablecoins. Isso pode marcar o início de uma nova era — a de “bancos centrais” operados por empresas privadas se tornando realidade.

Se o desempenho for mediano ou se os concorrentes superarem, a Circle talvez precise reconsiderar sua posição. Talvez, no final, ela seja apenas uma emissora de stablecoins, sem controle sobre a infraestrutura.

Mas, independentemente do resultado, a tentativa da Circle está impulsionando toda a indústria a refletir sobre uma questão fundamental: na era digital, quem deve controlar a moeda?

A resposta pode se revelar já no início de 2026.

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