Ainda sob questionamentos mesmo sem emitir tokens? As reverberações regulatórias do piloto de stablecoin do Meta

29 de abril de 2026, Meta (antiga Facebook) começou a testar pagamentos em USDC para alguns criadores na Colômbia e Filipinas, que podem receber por meio de carteiras de criptomoedas compatíveis com as redes Solana e Polygon, com suporte da empresa de pagamentos Stripe. No entanto, esse piloto aparentemente limitado logo chamou a atenção do Congresso dos EUA: o membro líder da minoria do Comitê do Senado de Bancos, Habitação e Assuntos Urbanos, senadora Elizabeth Warren, enviou uma carta ao fundador, presidente e CEO da Meta, Mark Zuckerberg, solicitando detalhes sobre o piloto de stablecoin e os planos de integração futura.

Do ponto de vista de mercado, a Meta não anunciou uma retomada de seu próprio projeto de stablecoin em grande escala, limitando-se a introduzir o USDC de terceiros como método de pagamento para criadores. Por que, então, ainda assim, isso atrai atenção regulatória? Se no futuro os pagamentos na blockchain se expandirem na ecossistema Meta para incluir pagamentos de publicidade, gorjetas, transações de comércio eletrônico ou assinaturas, que novos problemas regulatórios podem surgir em termos fiscais e de conformidade? Este artigo abordará o conteúdo do piloto da Meta, combinando o histórico do projeto Libra (Diem) e as últimas tendências regulatórias de ativos digitais nos EUA, para explorar a lógica regulatória por trás do piloto de stablecoin da Meta.

1. O conteúdo central do piloto da Meta

1.1 De bancos / PayPal para pagamentos na cadeia com USDC

Na estrutura de pagamento de criadores da Meta, os ganhos geralmente são calculados em dólares, e contas bancárias ou PayPal convertem esses valores para a moeda local. Esse processo depende de câmbio e liquidação transfronteiriça, envolvendo intermediários que podem gerar atrasos e custos elevados devido às taxas de câmbio e taxas de serviço. A página de ajuda oficial da Meta informa que o tempo de pagamento depende do banco, podendo levar de 1 a 7 dias úteis; pagamentos internacionais podem levar até 10 dias para chegar à conta bancária ou PayPal.

Diferentemente do sistema atual, o piloto oferece uma nova opção: criadores elegíveis podem inserir o endereço de uma carteira compatível com USDC na rede Solana ou Polygon no sistema de pagamento do Facebook, recebendo diretamente USDC, uma stablecoin lastreada em dólar. Assim, o recebimento de fundos é desvinculado do banco tradicional, usando a blockchain para liquidar transações, reduzindo a dependência de bancos intermediários e acelerando o tempo de pagamento do plataforma para a carteira. Contudo, a Meta não converte USDC em moeda local; se o criador desejar, ainda precisará usar canais de saque externos, o que pode gerar custos adicionais de tempo e dinheiro.

1.2 Por que Colômbia e Filipinas?

A Meta ainda não detalhou por que limitou o piloto a esses dois mercados, mas, do ponto de vista do aplicativo, ambos têm lógica compatível com pagamentos transfronteiriços com stablecoins. Por um lado, ambos os países têm forte demanda por remessas internacionais. As Filipinas, por exemplo, dependem de remessas de trabalhadores no exterior, que representam uma importante fonte de divisas. Dados do Banco Central das Filipinas indicam que, em 2025, as remessas via bancos totalizaram cerca de US$ 35,634 bilhões. A Colômbia, embora não seja tão conhecida por remessas de trabalhadores no exterior, também viu um crescimento rápido: em 2025, recebeu cerca de US$ 13,098 bilhões em remessas, com aumento de 10,6% em relação ao ano anterior, representando aproximadamente 3% do PIB. Esse grande mercado de fundos transfronteiriços faz com que criadores nesses países tenham maior necessidade de pagamentos e liquidações internacionais. Por outro lado, em comparação com mercados como EUA, UE ou Brasil, os mercados de criptomoedas na Colômbia e Filipinas são menores e de risco mais controlado, não ameaçando diretamente os sistemas de pagamento e regulamentações locais, sendo, portanto, mais adequados como amostras iniciais.

Além disso, ambos os países possuem alguma base de uso de ativos digitais. Segundo o relatório de adoção global de criptomoedas da Chainalysis de 2025, Ásia-Pacífico e América Latina estão entre as regiões de crescimento mais rápido em atividades na cadeia, e as stablecoins continuam a desempenhar papel importante em pagamentos transfronteiriços e infraestrutura de mercado de criptomoedas. Se o piloto for bem-sucedido, a Meta poderá expandir esse modelo para mais mercados de criadores e até para cenários mais complexos, como pagamentos de publicidade, assinaturas, comércio eletrônico ou gorjetas.

2. O piloto gera atenção regulatória: não emitir moeda não significa risco zero

As preocupações regulatórias com a iniciativa da Meta não são infundadas. Com mais de 3,5 bilhões de usuários ativos diários, Warren afirmou na carta: “Qualquer tentativa de controlar, influenciar ou favorecer algum stablecoin na plataforma da Meta — mesmo que emitido por terceiros — pode ter sérias consequências para a concorrência, privacidade, integridade do sistema de pagamentos e estabilidade financeira.” A declaração revela o foco do Congresso: se o piloto da Meta pode usar sua plataforma e base de usuários para moldar o mercado de stablecoins.

2.1 De Libra (Diem) ao legado histórico

Na verdade, o motivo pelo qual o piloto rapidamente chamou atenção do Congresso está relacionado ao legado do projeto Libra (Diem). Em 2019, a Meta, então Facebook, anunciou o lançamento de Libra, uma moeda digital com forte base de infraestrutura financeira: apoiada na vasta rede de usuários do Facebook, buscava criar um sistema de moeda digital para pagamentos transfronteiriços, transferências e uso comercial. Desde o anúncio, enfrentou forte escrutínio de órgãos reguladores nos EUA e globalmente. No mesmo ano, o CEO Mark Zuckerberg foi convocado pelo Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos EUA para explicar os planos financeiros do Facebook e o projeto Libra. Em 2020, a Libra foi rebatizada como Diem, tentando se distanciar da marca Facebook e parecer mais regulada e independente, mas, sob pressão regulatória contínua, o projeto foi encerrado em 2022.

Para a Meta, o fracasso de Libra/Diem não foi apenas uma questão de produto, mas uma derrota na relação com reguladores. O projeto consolidou a visão de que uma grande plataforma de tecnologia com bilhões de usuários, ao entrar no mercado de moeda digital e pagamentos, precisa passar por uma fiscalização mais rigorosa, mesmo com ajustes técnicos.

No caso de Warren, sua postura cética em relação às tentativas de Meta no setor de moedas digitais é influenciada por esse histórico. Além de considerar o fracasso de Libra como um alerta para plataformas de tecnologia emitirem moedas privadas, ela e o senador Richard Blumenthal enviaram uma carta conjunta no ano passado expressando preocupações específicas sobre o plano de stablecoin da Meta, incluindo a possibilidade de reativar uma moeda própria.

Na carta, Warren questiona detalhes: como a Meta escolhe stablecoins e parceiros, se há acordos comerciais, como controla riscos e privacidade; e se o piloto será um ponto de partida para que os usuários possam manter fundos na plataforma, ou se a Meta continuará a prometer que nunca emitirá sua própria stablecoin ou moeda privada. Isso reflete uma preocupação mais ampla: um piloto limitado pode ser uma porta de entrada para a Meta retomar o controle do sistema financeiro na plataforma. Segundo a revista Fortune, um porta-voz da Meta afirmou: “Deixamos claro para Warren que a Meta não tem stablecoin. Também dissemos que queremos que usuários e empresas possam escolher seus métodos de pagamento na nossa plataforma, incluindo stablecoins de terceiros.”

2.2 A influência do controle do ponto de entrada de pagamento na demanda

Mesmo sem discutir se a Meta expandirá ou não o controle sobre stablecoins, há motivos regulatórios para preocupação. Segundo o CEO da Polygon Labs, Marc Boiron, a Meta planeja expandir seu sistema de pagamentos com stablecoins para mais de 160 países até o final do ano. Se isso for verdade, a Meta estaria promovendo massivamente stablecoins em sua plataforma, usando seu enorme alcance para distribuir USDC a uma vasta base de usuários.

Para o mercado de criptomoedas, mesmo que uma grande plataforma não emita sua própria moeda, ela pode moldar a demanda de outras formas. Assim, a introdução de stablecoins de terceiros na plataforma da Meta, com sua escala e influência, pode ter impacto significativo. Para reguladores, o problema não é apenas quem emite a moeda, mas quem controla o relacionamento com os clientes e o ponto de entrada de pagamento. Em comparação com a tecnologia blockchain, a vantagem da Meta está na sua capacidade de distribuição, comunicação, publicidade e redes sociais. Se stablecoins se tornarem uma opção de divisão de receita ou pagamento de negócios na plataforma, a maioria dos usuários não se preocupará com qual cadeia ou emissor suporta a moeda; eles querem que seja eficiente, barato e acessível no uso diário. Assim, a Meta pode influenciar a competição entre diferentes stablecoins, carteiras e provedores de pagamento, decidindo quais terão prioridade na sua plataforma.

As preocupações do Congresso com Libra permanecem aqui. Com bilhões de usuários, a Meta tem poder de fato para controlar seu sistema de pagamento, limitando a entrada de pequenas empresas e novos concorrentes, o que pode reduzir a competição. Ainda que as stablecoins tenham menor volatilidade que outras criptomoedas, podem ocorrer saques em massa ou instabilidade.

2.3 A Lei CLARITY: foco na estrutura de mercado

Na carta, Warren pede que a Meta responda até 20 de maio, momento em que a legislação de ativos digitais nos EUA está em andamento. Em 14 de maio, o Comitê do Senado de Bancos aprovou por 15–9 o projeto de lei “Clareza do Mercado de Ativos Digitais” (Digital Asset Market Clarity Act, ou CLARITY). Agora, o projeto avança para votação no plenário do Senado.

Como uma lei mais ampla de estrutura de mercado de ativos digitais, o avanço do CLARITY reflete uma mudança na abordagem regulatória: não mais focada apenas na emissão, mas na entrada de ativos digitais em negociações, custódia, pagamentos e plataformas. Nesse contexto, a questão é: plataformas de distribuição, como a Meta, que entram no mercado de stablecoins como intermediárias, precisam ser reguladas? O Congresso está criando regras para um setor dominado por bolsas, carteiras e emissores, ou para plataformas com bilhões de usuários que controlam canais de pagamento? Nesse último caso, as regras para emissores e bolsas podem estar incompletas.

A Meta não é a única gigante de tecnologia explorando stablecoins ou pagamentos digitais. Empresas como X, Apple e Google também têm estudado integrar stablecoins às suas tecnologias de pagamento. O mercado de stablecoins está entrando numa fase em que a capacidade de distribuição será tão importante quanto a tecnologia. Se uma plataforma global como a Meta se tornar uma porta de entrada para stablecoins e pagamentos digitais, bancos, processadores de pagamento e empresas de criptomoedas podem enfrentar requisitos regulatórios mais rígidos, especialmente em áreas como diligência de clientes, proteção de dados e reservas. Assim, não é surpresa que a Meta seja foco de atenção regulatória neste momento.

3. Como redistribuir responsabilidades pelos pagamentos na cadeia?

3.1 Responsabilidade fiscal: descentralização da cadeia tributária

Para criadores, pagar em stablecoins não altera a natureza de sua renda. Ainda assim, eles continuam a gerar receita por monetização de conteúdo, devendo declarar de acordo com sua residência fiscal. A mudança é que, em vez de saldo em conta bancária ou PayPal, eles recebem um ativo digital lastreado em dólar na cadeia. Embora o USDC seja nominalmente atrelado a US$1, ele ainda seja um ativo digital, e as informações fiscais são geradas e armazenadas por múltiplos atores: plataformas, provedores de pagamento, carteiras, exchanges e registros na cadeia. No sistema tradicional, a Meta controla os valores pagos e os registros de pagamento, facilitando a fiscalização. Com stablecoins, a plataforma pode apenas saber quanto o criador ganhou na plataforma e o endereço da carteira; Stripe controla os registros de pagamento; a blockchain registra o hash, o horário e o endereço da transferência USDC; carteiras e exchanges controlam a conversão e retirada local. Assim, as informações fiscais ficam dispersas entre diferentes entidades e sistemas.

Do ponto de vista regulatório, essa dispersão aumenta a dificuldade de auditoria, declaração e fiscalização. Se o uso de stablecoins se expandir para publicidade, gorjetas, assinaturas e comércio eletrônico, a complexidade da cadeia tributária só aumentará.

3.2 Responsabilidade KYC/AML: maior desafio na fiscalização

O uso massivo de stablecoins pode ampliar riscos de atividades ilícitas, dificultando o combate à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo. Para promover o uso na plataforma, será necessário reforçar as obrigações de KYC e AML.

No sistema bancário ou PayPal, a conta geralmente passa por verificação de identidade, com documentos, selfies, etc. Se a verificação falhar, o usuário é removido, e seus fundos podem ser congelados ou perdidos. Como esses sistemas já possuem mecanismos de verificação de identidade, é relativamente fácil relacionar contas a pessoas reais.

Na estrutura de pagamento com stablecoins, o criador fornece um endereço de carteira. A Meta sabe quem é a conta na plataforma, mas não necessariamente quem controla a carteira. Assim, o foco do KYC passa a ser o endereço da carteira e sua relação com a conta na plataforma. A Meta pode verificar a validade do endereço, usar assinatura digital ou ferramentas de análise de risco na cadeia, mas esses processos são mais complexos. Se o uso de stablecoins for apenas para pagamentos a criadores, o risco é limitado à verificação do recebedor. Mas, se expandir para gorjetas, assinaturas, publicidade, comércio eletrônico e transferências sociais, a Meta enfrentará muitas transações pequenas, frequentes e internacionais, com risco de lavagem, fraude ou financiamento ilícito. As plataformas precisarão identificar se as transações são legítimas, quem são os envolvidos, se há conexões suspeitas, etc. Ferramentas de análise na cadeia podem ajudar, mas não substituem uma visão completa do contexto na plataforma. Assim, a Meta não pode simplesmente terceirizar toda a responsabilidade de AML para terceiros.

3.3 Organizador da rede de pagamento: limites regulatórios ainda indefinidos

Se os pagamentos na cadeia se expandirem na ecossistema Meta, o papel da plataforma também mudará. Stablecoins deixarão de ser apenas uma saída de pagamento para criadores, tornando-se uma ferramenta de pagamento múltipla entre usuários, criadores, comerciantes, anunciantes e a própria plataforma. Nesse cenário, apenas verificar se a moeda é emitida por uma entidade específica é insuficiente. O projeto de lei GENIUS, por exemplo, foca na regulação de emissores de stablecoins. Mas, como mencionado, o risco de stablecoins não está apenas no emissor. Uma grande plataforma pode, mesmo sem emitir, influenciar o mercado de stablecoins ao promover, exibir ou integrar certas moedas, moldando a demanda.

A abordagem do projeto CLARITY é ampliar o foco da regulação de emissores para plataformas de distribuição, intermediários, provedores de custódia e pagamento. Essa lógica exige que reguladores repensem o papel de plataformas gigantes na cadeia de stablecoins, incluindo responsabilidades de KYC/AML, relatórios fiscais, proteção ao consumidor e governança de dados. Assim, é necessário avaliar se a Meta, ao atuar como intermediária de pagamentos, desempenha funções similares e, se sim, quais responsabilidades ela deve assumir.

4. Resumo

O piloto da USDC da Meta ainda está em fase inicial e com escopo limitado, mas tem um significado importante: indica que stablecoins estão saindo do ambiente de exchanges e ecossistemas de blockchain para se integrar às operações de receita real em plataformas. Para criadores, o pagamento em USDC pode acelerar transferências internacionais; para a Meta, é uma tentativa mais discreta e pragmática de pagamento digital do que Libra/Diem. Se a Meta ampliar seus pagamentos para além de criadores, integrando-os a outros métodos de pagamento na plataforma, isso ainda é uma questão futura. Mas, de qualquer forma, esse piloto deixa uma lição importante para o mercado de criptomoedas: quando uma plataforma com alcance global começa a influenciar o uso de stablecoins, a atenção regulatória se estende do risco de uma moeda para o controle do ponto de entrada de pagamento, das relações com usuários e dos dados de transação, formando o poder de uma plataforma.

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