

Vivemos numa era digital em que a replicação de conteúdo é uma das suas principais características. Qualquer pessoa que utilize computadores sabe que selecionar texto e pressionar 'Ctrl C + Ctrl V' gera uma cópia fiel. Isto aplica-se não só ao texto, mas a todos os formatos digitais — imagens, áudio e vídeo podem ser copiados sem dificuldade.
Esta facilidade de cópia conduz a uma consequência importante: a abundância do conteúdo digital. Sempre que algo pode ser copiado sem limites, torna-se vulgar. Quanto maior a abundância, menos singularidade existe e menor é a capacidade de manter valor. Surge assim um desafio central no universo digital: como criar escassez e garantir autenticidade quando tudo pode ser replicado na perfeição?
O panorama digital enfrenta este paradoxo há décadas. Os métodos tradicionais de comprovar titularidade e autenticidade no mundo físico não têm correspondência direta no ambiente digital. Uma pintura num museu é, por natureza, única — existe num só local, exibe marcas físicas do autor e possui uma proveniência documentada. Já os ficheiros digitais, sejam originais ou cópias, são idênticos por definição.
É provável que já tenha lido notícias sobre obras digitais transacionadas por milhões de dólares sob a forma de NFT. Muitas dessas obras são imagens simples, facilmente copiáveis e partilháveis por qualquer pessoa. Afinal, o que compram realmente os colecionadores?
O aspeto fundamental é que o NFT não representa o ficheiro da imagem em si. Trata-se de um registo eletrónico que afirma, por exemplo: “Esta é a obra original intitulada ‘Everydays: The First 5000 Days’, criada pelo artista Beeple.” Usando uma analogia do setor imobiliário, o NFT não é o apartamento — é a escritura que comprova a titularidade de determinado imóvel.
Ao negociar um NFT, transfere-se o direito sobre a obra original, e não apenas o ficheiro digital. Este conceito de “direito sobre o original” é essencial. Mesmo antes dos NFT, o colecionismo de arte assentava na aquisição da rastreabilidade do original — a documentação que comprova a autenticidade de uma obra.
Basta recordar a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, alvo de inúmeras cópias e falsificações. O quadro original do Museu do Louvre é inestimável, mas, lado a lado com réplicas perfeitas, a maioria das pessoas não distinguiria o autêntico. O valor do quadro no Louvre não reside apenas na sua aparência — mas sim no registo histórico detalhado, desde as mãos de da Vinci ao primeiro proprietário e, depois, entre colecionadores ao longo de séculos. Essa documentação é o garante da autenticidade. A aquisição de arte assenta, assim, na rastreabilidade do original, não apenas no conteúdo visual.
Os NFT mais comuns são criados segundo o padrão Ethereum ERC-721. Este formato permite cunhar ficheiros multimédia — imagens, texto, áudio ou vídeo — como NFT registados na blockchain. A blockchain documenta a data de criação do NFT, o criador e todos os proprietários seguintes. Esta rastreabilidade é o que confere aos NFT o seu valor no universo dos ativos digitais.
A blockchain funciona como um registo imutável, garantindo um histórico permanente que não pode ser alterado. Cada transação é protegida por criptografia e validada pela rede, assegurando a autenticidade das declarações de titularidade. Esta tecnologia proporciona um grau de confiança na proveniência que era impossível atingir no universo digital tradicional.
Como já referido, um NFT não é a obra ou ficheiro multimédia em si — é, antes, uma escritura ou certificado de titularidade registado na blockchain. Mas onde está, então, armazenado o ficheiro multimédia real quando se cria um NFT?
Armazenar ficheiros multimédia diretamente na blockchain é tecnicamente possível, mas pouco prático. O armazenamento em blockchain implica custos proporcionais ao volume de dados, pelo que guardar imagens, áudio ou vídeo de grandes dimensões resultaria em taxas de transação muito elevadas. Por isso, a maioria dos criadores de NFT recorre a alternativas de armazenamento.
A solução mais frequente é armazenar os ficheiros multimédia na IPFS (InterPlanetary File System), uma rede distribuída peer-to-peer. O registo do NFT na blockchain inclui uma referência ao endereço IPFS do ficheiro original. Este modelo híbrido permite controlar os custos, assegurando ao mesmo tempo um registo permanente da titularidade.
É importante notar que a IPFS não é uma blockchain — é um sistema distribuído de armazenamento de ficheiros, concebido para mitigar a perda de dados e os ataques informáticos através da arquitetura peer-to-peer. Cada ficheiro é replicado em múltiplos nós, garantindo redundância e fiabilidade.
Este modelo de armazenamento introduz, porém, vulnerabilidades. Imagine que alguém adquire um NFT referente à Mona Lisa, mas o IPFS onde está a imagem é comprometido. O registo de titularidade na blockchain mantém-se intacto, mas o proprietário pode perder o acesso à obra adquirida. Este cenário ilustra a diferença essencial entre possuir direitos sobre algo e ter acesso efetivo ao objeto.
Com o recente ciclo altista das criptomoedas, surgiram várias plataformas especializadas em NFT. Destacam-se a Blur, OpenSea, Rarible, CryptoSlam, AtomicAssets e SuperRare. Estas plataformas facilitam negociações de NFT, recorrendo a mecanismos de leilão semelhantes aos do mercado de arte tradicional.
O processo é, habitualmente, o seguinte: os detentores de NFT listam os seus tokens nestas plataformas e os interessados submetem propostas de preço. O licitante mais alto, ou quem aceitar o preço pedido pelo vendedor, adquire o NFT. Este modelo replica o funcionamento dos leilões de arte, onde cada objeto único é vendido ao melhor licitante.
Estes mercados fornecem a infraestrutura essencial ao ecossistema NFT. Disponibilizam interfaces intuitivas para navegação, licitação e fecho de negócios. Muitas plataformas oferecem ainda funções como análise de coleções, rankings de raridade e sistemas de verificação de criadores. Este modelo de marketplace revelou-se eficaz em artigos de alto valor e caráter único, nos quais cada transação requer atenção individualizada.
No entanto, este modelo tem limitações. Tal como os mercados de arte física, o mercado de NFT sofre de baixa liquidez — há poucos compradores para cada NFT e as transações podem demorar. Esta iliquidez dificulta a avaliação e torna mais difícil vender rapidamente um NFT quando necessário.
Pense na negociação de arte física. Cada obra é única, com valor próprio, o que dificulta a compra e venda. Há poucos vendedores, os compradores são exigentes e as transações são raras. Em linguagem cripto, a arte é um “ativo ilíquido”.
Os NFT partilham estas características com a arte tradicional. Porém, inovações recentes procuram tornar a negociação de NFT mais dinâmica, aproximando-a da negociação dos tokens fungíveis (FT). É precisamente neste contexto que surge o padrão ERC-404.
Pode encontrar paralelos reais para este conceito. A negociação de apartamentos é um exemplo: ainda que os compradores geralmente visitem o imóvel, apartamentos de topo, com qualidade e construção padronizadas, podem ser adquiridos apenas com base na reputação da marca e na localização. Investidores chineses de elevado património, por exemplo, compram apartamentos na Coreia sem os verem, confiando na marca e na qualidade padronizada.
O mercado de NFT ainda não dispõe de “marcas premium” que garantam utilidade ou valor constantes. No entanto, com a expansão da Web3 e do metaverso, poderá surgir esta padronização no universo digital. Dominar os fundamentos dos NFT permite identificar oportunidades à medida que surgem novos padrões e variações. Este conhecimento é cada vez mais relevante à medida que a tecnologia evolui e surgem novos casos de uso.
O padrão ERC-404 é uma experiência para aumentar a liquidez dos NFT, combinando aspetos dos tokens fungíveis e não fungíveis. Apesar de estar numa fase inicial, estas inovações mostram como a tecnologia NFT continua a evoluir para ultrapassar as limitações atuais. Com a maturidade do setor dos ativos digitais, surgirão certamente novas soluções que conciliem singularidade e negociabilidade.
NFT significa Non-Fungible Token e representa ativos digitais únicos na blockchain. Ao contrário do Bitcoin e do Ethereum, que são fungíveis e permutáveis, os NFT são únicos e indivisíveis, representando a titularidade de bens digitais, colecionáveis ou arte virtual.
Os NFT têm utilidade em gaming, ativos digitais, verificação de identidade, DeFi e colecionismo. O valor elevado resulta da escassez e singularidade, semelhante ao que ocorre na arte física. A validação em blockchain garante autenticidade e titularidade, fomentando a procura e elevando a valorização dos itens digitais raros.
Crie uma carteira cripto como a MetaMask, adicione ETH, ligue-se a plataformas NFT, explore e adquira NFT por leilão ou preço fixo. Para vender, coloque o NFT ao preço pretendido e aguarde propostas de compra.
A compra de NFT envolve riscos de fraude, desde marketplaces falsos a ativos contrafeitos ou esquemas de phishing. Proteja-se verificando a autenticidade do criador, usando palavras-passe seguras e autenticação de dois fatores, confirmando URLs, comparando preços em plataformas oficiais e nunca partilhando chaves privadas ou clicando em links suspeitos.
Os NFT são ativos digitais únicos, cada um com um ID próprio, enquanto os FT são unidades permutáveis. Cada NFT representa algo específico, como arte ou colecionáveis, ao passo que os FT traduzem valor ou moeda abstrata, sem singularidade.
Após o pico de 2021-2022, o mercado de NFT está em consolidação, com recuperação seletiva de projetos. As perspetivas são positivas, sustentadas por maior utilidade, adoção institucional e integração com ativos reais. A maturidade e a clareza regulamentar deverão suportar um crescimento sustentável a longo prazo.
Escolha uma blockchain como Ethereum ou Binance Smart Chain, crie uma carteira (exemplo: MetaMask), escolha uma plataforma como OpenSea ou BakerySwap, carregue a sua obra digital e pague a taxa de cunhagem. Não é necessário saber programar.
O estatuto legal dos NFT depende da jurisdição. Nos Estados Unidos, são considerados propriedade; na China, são denominados coleções digitais e o mercado secundário é restrito. Em termos fiscais: na China aplica-se 6% de IVA sobre vendas, nos EUA 20% de imposto sobre mais-valias individuais e 28% para NFT de coleção. Empresas podem beneficiar de taxas mais baixas quando os NFT estão associados a bens físicos.











