

Muitos associam o conceito de "moeda digital" às principais criptomoedas. Nos últimos anos, porém, surgiu uma outra categoria de moeda digital que se tornou central — bastante distinta das criptomoedas. Trata-se da CBDC (Moeda Digital de Banco Central).
A CBDC consiste numa versão digital da moeda fiduciária, emitida pelo banco central de um país. Por moeda fiduciária entende-se o dinheiro oficialmente reconhecido por lei, como o iene ou o dólar. Como as CBDC são emitidas como responsabilidades dos bancos centrais, o Estado garante o seu valor, o que resulta em volatilidade de preços muito reduzida.
Tal como o numerário, as CBDC têm aceitação obrigatória e deverão aumentar a eficiência dos sistemas de pagamento, reduzir custos operacionais e reforçar o combate à criminalidade. Ao contrário do dinheiro físico ou dos depósitos bancários, as CBDC representam uma nova forma de dinheiro eletrónico e prevê-se que assumam um papel central nos pagamentos de uma sociedade digital.
Países como a China, a Suécia e as Bahamas têm liderado a adoção de CBDC, promovendo testes-piloto e implementações oficiais para impulsionar a inovação financeira. O Japão está também a analisar a viabilidade prática das CBDC.
Contudo, a introdução das CBDC levanta vários desafios — desde o impacto nos bancos comerciais e na infraestrutura financeira existente até à proteção da privacidade e às barreiras técnicas. Por isso, a maioria dos bancos centrais avança com prudência, através de etapas de investigação e desenvolvimento.
As principais diferenças entre CBDC e criptomoedas residem na autoridade emissora e no estatuto legal. Compreender estes elementos revela a essência de cada solução.
As CBDC são moeda digital fiduciária emitida por bancos centrais, entidades do Estado. Por serem moeda fiduciária, as CBDC devem ser aceites obrigatoriamente tal como o numerário, pelo que comerciantes e prestadores de serviços têm de aceitar pagamentos em CBDC.
Fundamentalmente, por terem garantia estatal, as CBDC apresentam muito menor susceptibilidade a flutuações de preço. Uma unidade de CBDC equivale sempre a uma unidade da moeda base. Embora existam oscilações cambiais, o valor intrínseco mantém-se estável — fator crucial para pagamentos correntes.
Já as criptomoedas são emitidas por entidades privadas ou indivíduos. Não têm estatuto de moeda fiduciária e a aceitação depende de cada pessoa ou empresa. Recusar pagamentos em criptomoedas não constitui infração legal.
Os valores das criptomoedas flutuam rapidamente de acordo com a procura e a oferta, o que gera elevada volatilidade. Os preços podem subir ou descer drasticamente em curtos espaços de tempo. Embora isso atraia investidores, torna as criptomoedas pouco fiáveis para uso quotidiano.
Ambas as soluções recorrem à tecnologia digital, mas apresentam diferenças substanciais ao nível da arquitetura técnica.
As CBDC são frequentemente estruturadas sobre Distributed Ledger Technology (DLT). Distributed Ledger Technology permite que os participantes da rede partilhem e gerem um registo comum, assegurando transparência e resistência à manipulação. A blockchain constitui o principal exemplo de DLT e está a ser considerada em muitos projetos de CBDC.
Como as CBDC são supervisionadas por bancos centrais, a maioria das implementações incorpora elementos centralizados, através de modelos híbridos, em vez de total descentralização. Isto permite aprovações mais rápidas e maior estabilidade global do sistema.
As criptomoedas também utilizam tecnologia de registos distribuídos para emissão e gestão. O seu traço distintivo reside no consenso entre participantes sem autoridade central. São assim necessários algoritmos de consenso.
Entre os algoritmos de consenso destacam-se o Proof of Work (PoW) e o Proof of Stake (PoS). Proof of Work baseia-se na capacidade computacional para validar transações — é altamente seguro, mas consome muitos recursos energéticos. Proof of Stake atribui direitos de validação em função das detenções de tokens, proporcionando maior eficiência energética.
Em suma, as CBDC visam sistemas eficientes sob gestão centralizada, enquanto as criptomoedas apostam em redes totalmente autónomas e descentralizadas — espelhando filosofias tecnológicas diferentes.
CBDC e criptomoedas divergem de forma significativa quanto ao uso previsto e ao impacto esperado.
As CBDC são moedas digitais de interesse público, com objetivos como simplificação dos sistemas de pagamento, redução de custos, adaptação ao contexto digital e prevenção do branqueamento de capitais. Funcionam como infraestrutura financeira nacional, melhorando a conveniência para os cidadãos.
As CBDC podem salvaguardar a soberania monetária e reforçar a estabilidade financeira. À medida que a sociedade se torna mais digital, uma moeda nacional digital pode preservar a autonomia monetária e estabilizar o sistema financeiro. Também se prevê que acelerem a transição para pagamentos digitais e aumentem a eficiência económica.
Pelo contrário, as criptomoedas proporcionam vantagens como transações independentes, oportunidades de investimento e inovação sem dependência de entidades centrais. Predominam enquanto ativos financeiros para obtenção de lucro individual.
As criptomoedas revelam ainda potencial para transferências internacionais e micropagamentos. Os bancos tradicionais são lentos e caros nas transferências além-fronteiras, enquanto as criptomoedas podem ser solução. São igualmente adequadas para pequenas transações, como aquisição de conteúdos online.
Em síntese, as CBDC constituem infraestrutura pública, enquanto as criptomoedas promovem sobretudo a liberdade económica do indivíduo.
A produção de moedas e notas envolve custos elevados — desde o fabrico e eliminação à instalação e manutenção de terminais e caixas automáticas, e à proteção do transporte de numerário. As CBDC podem reduzir drasticamente estes encargos físicos.
As CBDC eliminam custos de impressão, cunhagem, recolha e destruição de moeda usada, bem como de desenvolvimento de tecnologias anti-falsificação. Os custos de segurança e seguro no armazenamento e transporte podem igualmente diminuir.
Além disso, as taxas de processamento de pagamentos podem ser mais baixas. Os sistemas privados de dinheiro eletrónico cobram aos comerciantes normalmente entre 2–5% por transação. Sendo um recurso público, as CBDC podem implicar taxas nulas ou muito reduzidas.
Este aspeto é especialmente relevante para pequenas empresas. Menores taxas de pagamento aumentam a rentabilidade e podem traduzir-se em preços mais acessíveis para os consumidores. Taxas mínimas facilitam também a adoção generalizada das CBDC.
As CBDC podem registar todas as transações, tornando a fraude baseada em numerário muito mais difícil. O anonimato do dinheiro físico dificulta o rastreio de práticas ilícitas como branqueamento de capitais ou evasão fiscal, aproveitadas por redes criminosas e evasores.
Com as CBDC, cada transação é documentada digitalmente e pode ser rastreada. Isto facilita a deteção e prevenção de branqueamento de capitais e evasão fiscal. As autoridades fiscais e policiais podem analisar os registos para seguir fluxos ilícitos de fundos.
A transparência exige, no entanto, que a privacidade seja protegida. Os dados de transação do quotidiano não devem ser alvo de vigilância excessiva, pelo que é essencial desenhar sistemas centrados na privacidade. Muitos projetos de CBDC estudam mecanismos que preservam o anonimato em pagamentos de baixo valor, exigindo verificação de identidade para valores elevados.
As garantias dos bancos centrais reforçam a confiança dos utilizadores. O dinheiro eletrónico privado e as criptomoedas podem oscilar de valor conforme a credibilidade do emissor e do mercado, mas as CBDC — como moeda fiduciária — oferecem estabilidade e liquidez superiores. Quem utiliza CBDC pode confiar num valor fixo, favorecendo a adoção alargada como meio de pagamento.
As CBDC tornam os sistemas de pagamento mais ágeis e permitem pagamentos digitais rápidos de impostos e transferências. Os sistemas bancários tradicionais podem demorar dias nas transferências, enquanto as CBDC permitem transações praticamente instantâneas.
Por exemplo, apoios de emergência do Estado podem ser pagos rapidamente por via das CBDC. Os métodos tradicionais podem demorar semanas ou meses entre o pedido e o pagamento, mas as CBDC permitem transferências imediatas para carteiras digitais após aprovação. Isto é especialmente eficaz em cenários de emergência.
As CBDC facilitam respostas rápidas em situações de catástrofe ou crise. O numerário pode ser escasso ou difícil de transportar nas regiões afetadas, e os terminais automáticos ou veículos blindados podem estar indisponíveis.
Com as CBDC, pagamentos e transferências podem ser efetuados digitalmente, ultrapassando barreiras físicas. Basta haver dispositivos digitais disponíveis para que até zonas de desastre possam processar pagamentos, acelerando a recuperação.
As CBDC deverão também melhorar a eficiência nos pagamentos internacionais. Se vários países introduzirem CBDC interoperáveis, os custos e prazos das remessas internacionais podem cair drasticamente — um benefício relevante para o crescimento económico mundial.
As CBDC registam todas as transações, o que dificulta a fraude mas diminui o anonimato do dinheiro físico. Os bancos centrais e governos podem rastrear os fluxos de pagamento, o que suscita preocupações quanto à privacidade.
Governos ou empresas podem analisar padrões de consumo e dados patrimoniais para efeitos fiscais, definição de preços ou estratégias de marketing. Informações sobre compras e rendimentos podem ser usadas ou analisadas sem o conhecimento do titular.
Para mitigar estas preocupações, vários projetos de CBDC desenvolvem mecanismos de proteção da privacidade. São exemplo os sistemas escalonados que preservam o anonimato em transações de baixo valor, exigindo verificação de identidade para valores elevados, ou técnicas criptográficas que protegem os detalhes das operações, permitindo simultaneamente a deteção de fraude.
Conciliar privacidade e prevenção de fraude é um dos grandes desafios do design das CBDC. Vigilância excessiva pode violar direitos individuais, enquanto anonimato total favorece o crime. O equilíbrio exige consenso social alargado.
As CBDC são digitais, pelo que catástrofes ou falhas de rede podem causar interrupções do sistema. Grandes apagões ou falhas de comunicação podem suspender temporariamente pagamentos em CBDC.
Os ciberataques constituem outro risco. Se um sistema de CBDC for comprometido, podem ocorrer falhas generalizadas ou perdas de ativos. Por serem infraestrutura financeira nacional, as CBDC são alvo privilegiado de cibercriminosos e terroristas, exigindo segurança reforçada.
São essenciais soluções para transações offline e infraestruturas de segurança robustas. Tecnologias como cartões inteligentes ou dispositivos dedicados podem permitir operações offline limitadas. Estão também em análise modelos de segurança em múltiplas camadas e encriptação quântica.
O dinheiro físico não depende de eletricidade ou conectividade, pelo que é utilizável em situações de emergência. À medida que as CBDC se expandem, as vantagens do numerário podem perder-se, tornando imprescindíveis sistemas de backup para situações críticas.
Se as CBDC se tornarem comuns, os depósitos em bancos comerciais podem diminuir, reduzindo os fundos disponíveis para crédito. Os bancos comerciais emprestam a partir dos depósitos, atuando como intermediários financeiros, mas as CBDC permitem acesso direto à moeda digital dos bancos centrais — reduzindo o papel dos bancos comerciais.
Se for transferido dinheiro dos depósitos bancários para CBDC, os saldos dos bancos diminuem, limitando o crédito a empresas e famílias. Isto afeta as receitas dos bancos comerciais e pode ameaçar a estabilidade financeira global.
Em períodos de crise, pode verificar-se uma migração massiva de fundos dos bancos para CBDC — os chamados "bank runs digitais". Nos bank runs tradicionais, o acesso é limitado pela presença física em agências, mas as CBDC permitem transferências instantâneas e em grande escala, acelerando a instabilidade do sistema.
Para mitigar estes riscos, muitos bancos centrais estudam medidas como o limite às detenções de CBDC ou o desenho de CBDC sem remuneração, minimizando o impacto nos bancos comerciais. Ao posicionar as CBDC como alternativa ao numerário, e não como instrumento de investimento, pode preservar-se a estabilidade.
O Banco do Japão tem, nos últimos anos, intensificado a investigação e desenvolvimento das CBDC. Realiza programas-piloto faseados para avaliar a viabilidade técnica e o impacto potencial no sistema financeiro.
A investigação decorre por etapas. Na primeira, testaram-se funções base e desempenho — como emissão, transferência e resgate.
A segunda fase verifica funções avançadas, como pagamentos offline e resiliência do sistema perante picos de transações. Estão também em estudo a colaboração com empresas privadas e a interoperabilidade com sistemas de pagamento existentes.
Entre os potenciais benefícios das CBDC no Japão destacam-se:
Com uma população envelhecida, o Japão aposta em sistemas sociais eficientes com base digital, podendo as CBDC desempenhar papel decisivo nesta transformação.
No entanto, o Banco do Japão mantém uma postura cautelosa quanto à emissão de CBDC, considerando impactos nos bancos comerciais, privacidade e questões técnicas. O Banco afirma: "Não há planos para emitir uma CBDC atualmente, mas é fundamental preparar-se cuidadosamente para garantir a estabilidade e eficiência dos sistemas de pagamento e responder de forma eficaz a futuras mudanças."
O Japão continuará a acompanhar as tendências nacionais e internacionais de CBDC, promovendo investigação e desenvolvimento para encontrar a abordagem mais adequada.
A CBDC é moeda fiduciária digital emitida pelo banco central. Ao contrário da moeda tradicional, representa uma responsabilidade digital direta do banco central e funciona como versão eletrónica do numerário, acessível a qualquer hora.
As CBDC são moedas digitais garantidas pelo Estado, sob gestão dos bancos centrais. Criptomoedas como o Bitcoin são descentralizadas e independentes de autoridades centrais. As CBDC oferecem valor estável, enquanto o Bitcoin é altamente volátil e de natureza especulativa.
As CBDC proporcionam uma solução de pagamento digital segura e altamente conveniente, disponível em qualquer momento. Sendo moeda garantida pelo Estado, não apresentam risco de crédito e permitem liquidação imediata. Facilitam o acesso a serviços financeiros e suportam uma ampla gama de transações diárias e online.
As CBDC enfrentam riscos como ciberataques e fugas de dados. As preocupações de privacidade incluem possível monitorização governamental ou recolha excessiva de dados pessoais. Estes riscos podem ser amplamente minimizados através de encriptação avançada, limitação de dados e regulamentos rigorosos de proteção de dados.
Mais de 130 países — incluindo China, Suíça, Estados Unidos, Reino Unido e Japão — avançam no desenvolvimento ou implementação de CBDC. O yuan digital da China já está em piloto, enquanto outros países mantêm investigação ativa.
As CBDC vão tornar os pagamentos mais rápidos e eficientes, aumentar o acesso financeiro e promover maior transparência económica. Os particulares vão gerir ativos de forma mais simples e os bancos centrais poderão executar políticas diretamente.











