Davos foi, este ano, um palco singular.
Reuniu-se ali o “quem é quem” da indústria cripto, com intervenções de Brian Armstrong, Jeremy Allaire, CZ e Larry Fink (agora integrado na comunidade😆).
Embora a Crypto tenha ocupado lugar central, o verdadeiro destaque global foi a mensagem direta da administração Trump sobre a mudança de paradigma na ordem mundial.
Davos foi palco de dois discursos marcantes. O Secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick, apresentou “O globalismo falhou”, enquanto o Primeiro-Ministro do Canadá, Mark Carney, contrapôs: “A ordem internacional baseada em regras está em rutura, não em transição.”
Desde a Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional procurou uma certa ordem e cooperação. A ONU, apesar de limitada, era respeitada e influente nas decisões dos Estados.
O “Direito Internacional” existia porque acreditávamos nele. Era a nossa convicção coletiva que lhe conferia relevância.
A administração Trump decidiu romper com esta ilusão coletiva.
Na perspetiva de Trump, esta “ordem internacional baseada em regras” só subsistiu porque os EUA assim o permitiram. Sendo o país mais poderoso e com a força militar dominante, são os EUA que sustentam esta ordem. A visão “America First” implica recusar a colaboração com o resto do mundo.
Segundo Trump, e como Lutnick referiu no seu discurso, este paradigma já não serve os interesses americanos, pelo que o rumo vai mudar.
Nic Carter está certo – o Estado é a estrutura organizacional mais elevada que a humanidade criou. Antes dos Estados-nação, a religião e as monarquias eram as formas superiores de organização, antecedidas pelo feudalismo e pelas tribos.
Tentámos construir estruturas de ordem superior com “acordos partilhados”, como a ONU, mas estas revelaram-se frágeis e com influência limitada.
Assim chegámos a este ponto. Em 2026, os EUA desistem de criar estruturas organizativas unificadoras, optando por defender apenas os seus próprios interesses.
Estados párias como a Rússia e o Irão prosperam num cenário de ordem internacional débil. Sempre agiram segundo leis de poder, aproveitando as fragilidades da “ordem internacional baseada em regras” para expandir influência e cometer violações dos direitos humanos que a ONU apenas condenou formalmente.
É lamentável ver fracassar tentativas de cooperação global, mas pelo menos pode-se reconhecer que Rússia e China nunca respeitaram estas regras.
Eis o novo mundo:


Os protocolos cripto descentralizados são estruturas organizacionais soberanas e de ordem superior que não conseguiram emergir do paradigma de “ordem internacional baseada em regras”.
A fragmentação da comunidade internacional promovida por Trump é precisamente o tipo de cenário que o Ethereum procura equilibrar.
Enquanto o mundo unificado se desagrega em blocos regionais, o Ethereum volta a unir as pessoas no ciberespaço.
Estes protocolos não impõem leis nem protegem populações. Não substituem os Estados-nação. Contudo, constituem uma camada soberana de coordenação global, disponível para unir pessoas em todo o mundo.
Este poder ficou patente na troca de argumentos entre Brian Armstrong e o banqueiro central francês. O banqueiro central, como tantos outros, subestimou e interpretou mal o Bitcoin, e Brian corrigiu-o: “O Bitcoin não tem emissor – é um protocolo descentralizado…” e acrescentou o ponto essencial sobre o papel do Bitcoin na unificação global: “… [o Bitcoin] é, de facto, o maior mecanismo de responsabilização do défice orçamental.”
Não, a “ordem internacional baseada em regras” não resulta da cooperação voluntária entre Estados-nação. Mas será que pode surgir de um protocolo de internet descentralizado, baseado em criptografia e matemática?
O Bitcoin opera com lógica condicional. Parece uma “ordem internacional baseada em regras”. O Ethereum não aplica este princípio a contratos inteligentes Turing-completos?
Apesar do pessimismo e dos sentimentos negativos no setor cripto, continuo convicto de que ainda não explorámos todo o potencial dos contratos inteligentes.
Talvez a “ordem internacional baseada em regras” não venha da ONU.
Talvez surja de onde menos se espera.
Talvez venha do Ethereum.





