O papel do projeto Agorá no ecossistema global de pagamentos financeiros: como bancos centrais, bancos comerciais e finanças tokenizadas colaboram

Última atualização 2026-07-07 09:30:10
Tempo de leitura: 4m
A infraestrutura financeira global está evoluindo continuamente para a tokenização e digitalização. Os pagamentos internacionais estão passando dos modelos tradicionais de liquidação bancária para estruturas inovadoras que utilizam a tecnologia blockchain e registros compartilhados. O Projeto Agorá, uma iniciativa de pesquisa relevante conduzida pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS) em parceria com vários bancos centrais e instituições financeiras, tem como foco não só aumentar a eficiência dos pagamentos, mas também criar um ecossistema de pagamentos internacionais de nova geração que garanta estabilidade financeira e conformidade regulatória.

O mercado financeiro global passa por uma profunda transformação em sua infraestrutura de pagamentos. Com o avanço do comércio internacional, dos investimentos globais e das cadeias de suprimentos, os pagamentos transfronteiriços tornaram-se essenciais para sustentar a economia mundial. Porém, a maioria dos sistemas de pagamento atuais ainda opera sobre arquiteturas financeiras criadas há décadas. O aumento acelerado do volume de transações, a ascensão das finanças digitais e a demanda crescente por fluxos globais de capitais desafiam os modelos tradicionais de pagamento, principalmente em eficiência, custo e transparência das informações.

Recentemente, Tokenized Finance, blockchain e Distributed Ledger Technology (DLT) passaram a ser temas centrais para bancos centrais e instituições financeiras no mundo todo. Pesquisas avaliam como essas novas tecnologias podem redesenhar processos de pagamento, mantendo a estabilidade financeira e a conformidade regulatória, tornando o fluxo de capitais mais ágil, seguro e transparente. Nesse cenário, surge o Project Agorá. Promovido em conjunto pelo Bank for International Settlements (BIS) e pelo Institute of International Finance (IIF), o projeto é mais que um teste de tecnologia de pagamentos — é um experimento sobre a colaboração futura do ecossistema global de pagamentos. A iniciativa reúne diversos bancos centrais, bancos comerciais e instituições financeiras reguladas, reforçando que o objetivo não é criar uma plataforma única, mas sim uma nova infraestrutura que conecte diferentes agentes do sistema financeiro. Para compreender o real valor do Project Agorá, é preciso analisá-lo sob o aspecto técnico e também dentro do ecossistema global de pagamentos, observando como instituições financeiras colaboram para evoluir os sistemas de pagamento internacionais.

Por que o ecossistema global de pagamentos financeiros avança para a tokenização?

O sistema global de pagamentos, por décadas, operou por meio de uma estrutura que envolve bancos centrais, bancos comerciais e instituições de compensação. Essa arquitetura, consolidada ao longo do tempo, garante estabilidade às operações diárias dos mercados financeiros internacionais. Entretanto, o aumento da demanda por pagamentos transfronteiriços impõe novos desafios. Cada país possui sistemas de pagamento próprios, regras de compensação e horários de funcionamento distintos. Uma transação internacional exige múltiplos intermediários, gerando atrasos, custos elevados e pressão sobre a gestão de liquidez.

Paralelamente, o mercado financeiro global caminha para operações 24/7. Os mercados de ativos digitais já funcionam ininterruptamente, e empresas e instituições financeiras esperam que os sistemas de pagamento ofereçam transferências transfronteiriças instantâneas e transparentes. Nesse contexto, Tokenized Finance ganha destaque. Ao digitalizar ativos financeiros em tokens e utilizar registros compartilhados para transações e liquidações, a troca de informações entre mercados se torna imediata e os processos de pagamento são simplificados. O Project Agorá não visa criar novas moedas, mas digitalizar ativos financeiros existentes, permitindo que sistemas atuais operem sobre novas bases tecnológicas. Trata-se, portanto, de uma atualização da infraestrutura global de pagamentos, não da criação de um sistema financeiro do zero.

Qual é o papel do BIS na infraestrutura financeira global?

What role does BIS play in global financial infrastructure? (Fonte: BIS_org)

No Project Agorá, o Bank for International Settlements (BIS) atua como coordenador e líder de pesquisa. Reconhecido como principal plataforma de cooperação entre bancos centrais, o BIS tem como missão facilitar a comunicação e colaboração sobre estabilidade financeira, sistemas de pagamento e regulamentação. Diante de novas tecnologias ou mudanças institucionais, o BIS avalia seu valor prático por meio de pesquisas, testes e parcerias internacionais.

O Project Agorá exemplifica o compromisso do BIS com a pesquisa em Tokenized Finance. Diferente de experiências anteriores focadas em moedas digitais nacionais, o projeto abrange múltiplas jurisdições, com ênfase em colaboração internacional, governança conjunta e interoperabilidade de pagamentos.

O BIS não oferece serviços de pagamento nem atua como banco comercial. Seu papel é estruturar pesquisas que estimulem discussões e validações entre países, apoiando bancos centrais e instituições financeiras na exploração do futuro da infraestrutura de pagamentos. O Project Agorá é mais do que um teste técnico — reflete o objetivo do BIS de preservar a segurança, interoperabilidade e consistência dos sistemas de pagamento diante da inovação financeira global.

Por que os bancos centrais são protagonistas no Project Agorá?

Bancos centrais são fundamentais no Project Agorá porque controlam as funções centrais dos sistemas monetários nacionais e da infraestrutura de pagamentos. Eles fornecem moeda, garantem estabilidade financeira, gerenciam sistemas de pagamento e compensação e asseguram o funcionamento dos mercados. Qualquer reforma relevante na infraestrutura de pagamentos requer sua participação.

O Project Agorá não pretende diminuir o papel dos bancos centrais, mas sim tokenizar as reservas dessas instituições, mantendo-as como ativos de maior credibilidade na arquitetura de pagamentos. Assim, mesmo com a adoção de blockchain, as transações permanecem ancoradas ao sistema de moeda fiduciária. Como pagamentos transfronteiriços envolvem diferentes moedas e legislações, a padronização só é possível com a cooperação entre bancos centrais. Essa colaboração é essencial para o avanço das pesquisas em pagamentos internacionais. Bancos centrais não são apenas participantes — são os pilares da estabilidade do ecossistema de pagamentos.

Qual é o papel dos bancos comerciais no Project Agorá?

Embora os bancos centrais forneçam a moeda de pagamento, a maior parte dos serviços financeiros para empresas e consumidores é ofertada pelos bancos comerciais. O Project Agorá mantém a estrutura bancária de dois níveis, permitindo que bancos comerciais sigam como provedores essenciais de serviços de pagamento. Eles continuam gerenciando fundos de clientes, iniciando transações, administrando liquidez e participando de registros compartilhados. Permanecem como portas de entrada para pagamentos internacionais, liquidações comerciais e serviços financeiros, agora apoiados por tokenização e tecnologia de registros compartilhados.

Essa abordagem traz dois benefícios principais. Primeiro, evita rupturas bruscas na estrutura do mercado financeiro. Empresas e investidores seguem utilizando bancos conhecidos, sem necessidade de interagir diretamente com novas tecnologias. Segundo, os bancos comerciais mantêm sua expertise em atendimento ao cliente, gestão de riscos e inovação, oferecendo mais serviços dentro da nova arquitetura, em vez de serem substituídos pela tecnologia. O Project Agorá propõe um modelo colaborativo: “bancos centrais garantem confiança, bancos comerciais oferecem serviços financeiros e registros compartilhados ampliam a eficiência dos pagamentos”, sem redefinir papéis institucionais.

Como Tokenized Finance conecta bancos centrais, bancos comerciais e mercados financeiros?

O Project Agorá vai além da agilidade nos pagamentos transfronteiriços. O projeto busca estabelecer uma estrutura colaborativa que una diferentes agentes financeiros. Tokenized Finance não é um sistema isolado, mas sim um elo vital entre bancos centrais, bancos comerciais e mercados, integrando processos de pagamento, liquidação e gestão de liquidez antes fragmentados.

Historicamente, instituições financeiras mantêm registros e sistemas próprios. Uma transação internacional exige múltiplas trocas de dados entre bancos, instituições de compensação e sistemas de pagamento, causando atrasos, redundância e custos operacionais crescentes.

O Project Agorá visa simplificar esses processos com um Registro Unificado. Bancos centrais fornecem reservas tokenizadas para liquidação, bancos comerciais utilizam depósitos tokenizados para fluxos de capital e o registro compartilhado sincroniza transações e saldos. Assim, cada agente mantém suas funções, mas executa pagamentos e liquidações em uma infraestrutura comum. Tokenized Finance atua como uma nova linguagem colaborativa, não como um novo sistema financeiro. Permite a troca de informações, execução de transações e liquidação de fundos sob padrões unificados, reduzindo atritos e preparando o terreno para a inovação financeira.

Qual a relação do Project Agorá com Wholesale CBDC e RTGS?

Project Agorá é frequentemente comparado ao Wholesale Central Bank Digital Currency (Wholesale CBDC) e aos sistemas Real-Time Gross Settlement (RTGS), mas seus objetivos são distintos.

RTGS é a infraestrutura de pagamentos de alto valor utilizada pela maioria dos bancos centrais, garantindo liquidações seguras e estáveis entre instituições financeiras. Wholesale CBDC, tema de pesquisas em bancos centrais, consiste em fornecer moeda digital do banco central para instituições financeiras, ampliando eficiência e interoperabilidade no atacado.

O Project Agorá parte dessas bases, mas não é apenas um experimento com moeda digital. O projeto explora como reservas tokenizadas de bancos centrais, registros compartilhados e colaboração internacional permitem pagamentos e liquidações entre instituições de diferentes jurisdições. O foco não é apenas “digitalizar o dinheiro”, mas “redesenhar a infraestrutura financeira global após a digitalização”. Trata-se de repensar toda a arquitetura de pagamentos, não de criar uma ferramenta única.

Em que o Project Agorá difere dos pagamentos com stablecoin?

Com o uso crescente de stablecoins em pagamentos internacionais, as diferenças entre Project Agorá e modelos baseados em stablecoin tornam-se relevantes. Ambos buscam eficiência e agilidade via ativos digitais e blockchain, mas têm filosofias e governanças distintas.

O Project Agorá baseia-se em reservas de bancos centrais e depósitos de bancos comerciais, preservando o sistema de moeda fiduciária e a estrutura bancária de dois níveis. Bancos centrais garantem a confiança; bancos comerciais, os serviços de capital e o relacionamento com clientes, com foco em estabilidade e conformidade regulatória. Stablecoins, emitidas por instituições privadas e geralmente lastreadas em moeda fiduciária ou ativos, variam em modelo, governança e regras conforme o emissor. Algumas são usadas em pagamentos internacionais, liquidações e finanças on-chain, mas precisam se adequar a regulações locais. Project Agorá e stablecoins não são concorrentes — representam caminhos distintos para a infraestrutura de pagamentos: o primeiro aprimora a infraestrutura pública, o segundo reflete a inovação privada.

Por que o Real-Value Testing é um marco importante?

Qualquer nova infraestrutura financeira precisa ser testada e validada antes da implantação. O Project Agorá entrou na fase de Real-Value Testing, passando do conceito para ambientes de transações reais. Esse marco é importante porque, agora, os testes envolvem fluxos de capital e operações financeiras reais, não apenas simulações.

A equipe avalia eficiência dos pagamentos, gestão de liquidez, finalização de transações, segurança da informação, governança de dados e colaboração internacional. Como sistemas de pagamento globais envolvem diversas instituições e jurisdições, qualquer inovação precisa atender a requisitos de eficiência, segurança e conformidade.

O Real-Value Testing também é essencial para que as instituições avaliem se pagamentos tokenizados podem ser integrados aos sistemas financeiros existentes, sem necessidade de novas plataformas independentes. Os resultados orientarão decisões sobre adoção de tecnologias relacionadas.

Quais as implicações do Project Agorá para a infraestrutura financeira global do futuro?

Mesmo em fase de pesquisa, o Project Agorá reflete tendências importantes do mercado financeiro global. Primeiramente, pagamentos internacionais caminham para liquidação em tempo real. Com empresas e cadeias de suprimentos cada vez mais dependentes de fluxos ágeis de capital, sistemas de pagamento evoluirão para operações 24/7. Em segundo lugar, processos de pagamento, liquidação e conformidade tendem à integração. Registros compartilhados e dados padronizados reduzem redundância, aumentam eficiência e melhoram a transparência regulatória. Em terceiro, Tokenized Finance pode se consolidar como tecnologia-chave da infraestrutura financeira, otimizando não só pagamentos internacionais, mas também liquidação de valores mobiliários, emissão de títulos, tokenização de ativos e outros serviços. Por fim, o Project Agorá reforça a importância da cooperação internacional na inovação financeira. Como pagamentos internacionais envolvem múltiplas moedas, regulações e mercados, nenhum país pode implementar todas as reformas sozinho. A colaboração entre bancos centrais, bancos comerciais e instituições internacionais é fundamental para construir uma infraestrutura global interoperável.

Resumo

O Project Agorá é mais que uma iniciativa de pesquisa em pagamentos tokenizados: representa um novo modelo de colaboração para o ecossistema global de pagamentos. Ao envolver bancos centrais, bancos comerciais e instituições financeiras internacionais, o projeto busca preservar a estabilidade dos sistemas existentes ao utilizar tokenização e registros compartilhados para aumentar a eficiência dos pagamentos internacionais. O objetivo não é substituir agentes financeiros, mas redefinir a colaboração entre instituições. Bancos centrais garantem a confiança, bancos comerciais gerenciam serviços financeiros e fluxos de capital, e a nova infraestrutura permite transações e liquidações mais eficientes. Com o crescimento da demanda global, expectativas por liquidação instantânea, pagamentos 24/7 e interoperabilidade internacional continuarão aumentando. O Project Agorá serve como laboratório para Tokenized Finance e oferece insights valiosos sobre a evolução da infraestrutura financeira global.

Perguntas Frequentes

Q1: Qual o papel do Project Agorá no ecossistema global de pagamentos financeiros?

O Project Agorá, promovido pelo Bank for International Settlements (BIS) em parceria com vários bancos centrais, busca construir uma infraestrutura de pagamentos internacionais de atacado mais eficiente e interoperável, utilizando Tokenized Finance e tecnologia de registros compartilhados.

Q2: Por que bancos centrais e bancos comerciais devem participar do Project Agorá?

Bancos centrais oferecem a base de confiança e estabilidade para os sistemas de pagamento, enquanto bancos comerciais prestam serviços de pagamento para empresas e mercados. O Project Agorá mantém o sistema bancário de dois níveis, permitindo que ambos colaborem em uma estrutura tokenizada para aumentar a eficiência dos pagamentos internacionais.

Q3: Em que o Project Agorá difere do Wholesale CBDC?

O Wholesale CBDC foca na digitalização da moeda de banco central, enquanto o Project Agorá adota uma abordagem mais ampla, combinando reservas tokenizadas dos bancos centrais, depósitos de bancos comerciais e registros compartilhados para criar uma estrutura completa de pagamentos e liquidações internacionais.

Q4: O Project Agorá significa que todos os sistemas de pagamento globais vão usar blockchain no futuro?

O Project Agorá ainda está em fase de pesquisa e Real-Value Testing, avaliando se a tokenização e registros compartilhados podem de fato aumentar a eficiência dos pagamentos internacionais. A adoção futura dependerá de políticas regulatórias, maturidade tecnológica e demanda de mercado.

Autor:  Allen
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