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Circle cai 20%: Um rascunho que desencadeou um terremoto cripto
24 de março de 2026, o CEO da Circle, Jeremy Allaire, provavelmente passou pelo dia mais difícil desde a sua entrada na bolsa.
A empresa de stablecoins que cofundou viu o seu valor de mercado evaporar-se em um quinto durante o dia. Mais de 30 milhões de ações foram negociadas, o pânico ficou claro na tela.
E tudo isso foi causado por algumas páginas vazadas de um escritório em Washington.
Negócio de 78 bilhões de dólares de “água potável”
Para entender esta queda, é preciso compreender como a Circle realmente ganha dinheiro.
Muitos pensam que a empresa de stablecoins é uma tech, mas na verdade funciona mais como um banco. Você dá 1 dólar, eles te dão 1 token USDC, que pode transferir ou gastar na blockchain. Enquanto isso, eles usam seus dólares para comprar títulos do Tesouro dos EUA.
Os juros desses títulos são o lucro da Circle.
Até que ponto essa operação é lucrativa? No quarto trimestre de 2025, apenas os juros de reserva contribuíram com 733 milhões de dólares.
O volume de USDC em circulação cresceu 72% em um ano, atingindo 78 bilhões de dólares. A Circle controla um fundo de 78 bilhões, e os juros entram como água corrente, sem parar.
Só captar reservas não basta, é preciso fazer mais pessoas quererem trocar dinheiro por USDC. Assim, a Circle fez uma parceria com a Coinbase: parte dos juros é compartilhada com a Coinbase, que oferece aos usuários um retorno de 3,5% ao ano. Você coloca seu dinheiro, fica deitado e ganha juros. Sem precisar entender de blockchain ou fazer qualquer operação, o rendimento chega automaticamente.
Esse modelo criou um ciclo virtuoso: os lucros atraem usuários, que trazem fundos, que geram juros, que alimentam os lucros.
Esse ciclo acelerou, e o valor das ações da Circle saiu de cerca de 50 dólares no início de fevereiro para 135 dólares, um aumento de 170% em seis semanas. O mercado espera que o Federal Reserve mantenha altas taxas de juros, o que também favorece a Circle, pois quanto maior a taxa, maior o rendimento de reserva.
Então, alguém percebeu essa máquina.
Contra-ataque do setor bancário
Em 24 de março, veio à tona o mais recente projeto de lei do Senado dos EUA, o CLARITY Act.
Essa legislação, chamada de “Lei de Clareza do Mercado de Ativos Digitais”, foi criada para regular o mercado de criptomoedas, já aprovada na Câmara. Mas o Senado acrescentou uma emenda: proíbe qualquer plataforma de oferecer rendimentos passivos com stablecoins, incluindo qualquer arranjo que seja funcionalmente equivalente a juros bancários.
Resumindo, o esquema de “manter moeda rendendo” não será mais permitido.
Essa proibição atinge diretamente a Circle. Sem possibilidade de pagar juros, ninguém terá motivação para manter USDC a curto prazo, e a longo prazo, o negócio de stablecoins na Coinbase também pode encolher. A Coinbase obteve 364 milhões de dólares no quarto trimestre com stablecoins, uma receita que agora está em risco.
O jogo por trás da proibição é mais interessante do que a própria proibição.
A disputa pelo rendimento das stablecoins já dura quase um ano.
A lei GENIUS, assinada em julho de 2025, já proibia emissores de pagar juros diretamente aos detentores, mas não cobria plataformas relacionadas ou de terceiros.
A Circle e a Coinbase aproveitaram essa brecha: a Circle repassa os juros de reserva para a Coinbase, que distribui aos usuários como “recompensas”. O dinheiro circula, mas o rendimento continua chegando.
Mais de 40 associações bancárias, lideradas pela American Bankers Association, enviaram uma carta ao Congresso pedindo para fechar essa brecha. A última versão do CLARITY Act, com a proibição de rendimentos, é resultado dessa pressão.
O setor bancário tradicional está impulsionando essa mudança.
A lógica é simples: se a Coinbase oferece 3,5% de retorno, por que os clientes ainda colocariam dinheiro em contas correntes tradicionais? Essa estratégia de rendimento ameaça a base de depósitos dos bancos.
Relatos indicam que, no dia em que o projeto foi divulgado, os representantes bancários já estavam revisando o texto. O setor de criptomoedas quer competir com os bancos, e eles não vão deixar suas reservas serem drenadas por um grupo de programadores.
Os legisladores em Washington precisam escolher entre esses dois lados, e, pelo menos por enquanto, o poder tradicional parece estar à frente.
Shay Boloor, chefe de estratégia de mercado da Futurum Equities, destacou uma questão ainda mais importante: essa proibição bloqueia a evolução do USDC de uma ferramenta de pagamento para um produto de armazenamento de valor.
Essa mudança de status era a principal razão do aumento de 170% no valor da ação nas últimas semanas. O mercado precificava o potencial futuro do USDC, mas agora essa expectativa foi cortada, tornando a alta uma oportunidade de venda.
O preço caiu de 125 dólares para cerca de 101 dólares, a maior queda diária desde o IPO em junho de 2025. A Coinbase também caiu cerca de 10%.
Tether aproveita a crise
E a má notícia não para por aí.
No mesmo dia, o maior concorrente da Circle, a Tether, anunciou que contratou uma das quatro maiores firmas de auditoria para revisar suas reservas de USDT.
Normalmente, essa notícia seria apenas uma curiosidade, mas neste momento, seu impacto é dez vezes maior.
No mercado de stablecoins, a dinâmica é clara: a USDT é a maior, mas sua transparência de reservas é questionada; a USDC é menor, mas mais confiável.
Investidores institucionais preferem USDC por segurança. A vantagem da Circle sempre foi a confiança.
Agora, a Tether quer preencher essa lacuna. Se passar na auditoria, a maior diferença entre USDT e USDC desaparece. Enquanto isso, os reguladores estão atacando a reputação da Circle, e a concorrência constrói sua própria reputação.
Com esse movimento, o timing é muito preciso. Antes de uma possível reformulação na regulamentação de stablecoins, a Tether mostra sua seriedade, planejando ampliar sua presença nos EUA.
Especialistas dizem que, se a Tether conseguir a aprovação de uma das quatro maiores firmas de auditoria e expandir sua atuação nos EUA, a participação do USDC no mercado institucional será ainda mais reduzida.
A imagem da Circle como uma “empresa de conformidade exemplar” está se transformando de uma vantagem exclusiva para uma barreira de entrada.
Armadura e correntes
Por outro lado, há opiniões mais cautelosas.
O analista Owen Lau, da Clear Street, acredita que o mercado reagiu exageradamente. Ele afirma que a situação não é tão ruim quanto parece, sendo mais uma reação impulsiva a notícias legislativas complexas.
Ele tem razão: o CLARITY Act ainda é um projeto de lei no Senado, longe de se tornar lei definitiva.
Embora o governo Trump tenha apoiado a aprovação, as restrições de rendimento podem ser alteradas ou até removidas na versão final.
O projeto também não é uma proibição total: recompensas relacionadas a pagamentos, transferências ou promoções ainda podem existir, apenas o “rendimento passivo” não. A SEC, CFTC e o Secretaria do Tesouro ainda vão definir, dentro de um ano, o que será permitido como recompensa, e os detalhes ainda não estão escritos.
Se a Circle conseguir adaptar seu modelo de “manter e ganhar”, a operação pode continuar.
Além disso, o crescimento do USDC não depende apenas de rendimento. O maior mercado de previsão do mundo, a Polymarket, usa USDC, e esse tipo de demanda não desaparece com uma lei.
No ano passado, a Circle lançou a Arc, uma blockchain Layer-1 voltada para o mercado de stablecoins, com foco em pagamentos globais, câmbio e tokenização de ativos. A ideia é expandir além da emissão de stablecoins para infraestrutura financeira. O USDC não vai desaparecer, mas sua taxa de crescimento nos próximos meses é uma grande incógnita.
Ao olhar para trás, essa queda serve de alerta para todas as empresas de criptomoedas.
Nos últimos anos, as mais bem-sucedidas seguiram uma estratégia de conformidade regulatória. A Circle é um exemplo: abriu capital, promoveu auditorias transparentes, fez lobby, tudo para provar ao mercado financeiro que é uma inovação de vestimenta formal.
O mercado recompensou: em menos de um ano, o valor das ações multiplicou-se várias vezes. No quarto trimestre, a receita foi de 770 milhões de dólares, aumento de 76,9%, com lucro por ação de 0,43 dólares, muito acima dos 0,25 dólares previstos. No papel, é uma empresa de crescimento acelerado.
Porém, o projeto de lei CLARITY revelou uma realidade desconfortável: conformidade significa estar sob o olhar atento da regulamentação. A Tether, que opera fora dos EUA, não é afetada diretamente, mas a Circle, listada na bolsa americana, precisa aceitar a fiscalização. Conformidade deu à Circle uma armadura, mas também uma corrente.
A legislação ainda está em negociação, e a história ainda não acabou.
Mas, neste 24 de março de 2026, fica um marco: quando a inovação no mundo cripto encontra os interesses do sistema financeiro tradicional, o peso da balança em Washington depende de quem faz mais barulho.