Riot vende 3 778 BTC no 1.º trimestre: estará a chegar ao fim a era do HODLing por parte dos mineradores?

Mercados
Atualizado: 2026-04-03 09:47

No dia 2 de abril de 2026, a Riot Platforms, empresa de mineração cotada no Nasdaq, divulgou a sua atualização operacional do primeiro trimestre, revelando a venda de um total de 3 778 Bitcoin nos primeiros três meses do ano a um preço médio de 76 626 $ por Bitcoin, gerando aproximadamente 289,5 milhões $ em receitas. Embora este valor, isoladamente, possa não parecer extraordinário, contrasta fortemente com o registo de zero vendas de Bitcoin da Riot no primeiro trimestre de 2025, evidenciando a relevância deste movimento.

No entanto, a decisão da Riot está longe de ser um caso isolado. Em simultâneo, a MARA Holdings vendeu mais de 15 000 Bitcoin, arrecadando cerca de 1,1 mil milhões $; a Genius Group liquidou a totalidade dos seus 84 Bitcoin para reembolsar dívida; e o governo do Butão continuou a reduzir as suas reservas de Bitcoin. Assiste-se a um mapa de vendas por parte de mineradores que se desenrola na América do Norte, Ásia e Europa.

Tomando as vendas da Riot no primeiro trimestre como ponto de partida, este artigo analisa sistematicamente o panorama de dados da atual vaga de vendas de mineradores, o colapso estrutural da procura por acumulação de Bitcoin por parte de empresas e a lógica industrial por detrás da transição dos mineradores para infraestruturas de IA. Exploramos ainda potenciais caminhos de evolução sob diferentes cenários.

Uma Perspetiva Panorâmica das Vendas de Mineradores

No primeiro trimestre de 2026, a Riot Platforms minerou 1 473 Bitcoin, uma ligeira diminuição de cerca de 4% face aos 1 530 registados no mesmo período de 2025, com uma média diária de 16,4 BTC. A venda de 3 778 BTC significa que a Riot vendeu aproximadamente 2,6 vezes a sua produção trimestral, reduzindo as suas reservas de Bitcoin de cerca de 19 223 no final do trimestre anterior para 15 680, incluindo 5 802 Bitcoin restritos—uma queda homóloga de cerca de 18%.


Fonte: Riot Platforms

O preço médio de venda de 76 626 $ é o dado mais relevante nesta divulgação. A 3 de abril de 2026, o preço spot do Bitcoin situava-se em cerca de 66 825 $. O preço médio de venda da Riot foi cerca de 14,6% superior ao valor de mercado atual, o que indica que a Riot vendeu em vários lotes ao longo do primeiro trimestre, beneficiando de preços relativamente elevados entre janeiro e março, em vez de ter sido forçada a vender em mínimos de mercado.

Empresa de Mineração / Entidade Quantidade Vendida Montante Angariado Principal Motivo
Riot Platforms 3 778 BTC 289,5 M $ Financiamento da construção e operações do centro de dados de IA de Corsicana
MARA Holdings 15 133 BTC ~1,1 mil M $ Recompra de obrigações convertíveis, transição para infraestruturas de IA
Empery Digital 370 BTC ~24,7 M $ Reembolso de empréstimo
Genius Group 84 BTC ~8,5 M $ Liquidação total para pagamento de dívida
Governo do Butão 3 103 BTC Redução contínua, reservas passaram de 13 000 para ~5 400
Cango Inc. 4 451 BTC 305 M $ Venda de cerca de 60% das reservas

O caso da MARA Holdings é ainda mais expressivo em termos de escala. Entre 4 e 25 de março, a MARA vendeu 15 133 Bitcoin em fases, utilizando o produto para recomprar obrigações convertíveis com maturidade em 2030 e 2031 a desconto. Esta operação reduziu a dívida em circulação de 3,3 mil milhões $ para 2,3 mil milhões $—uma queda de 30%—e permitiu uma poupança imediata de cerca de 88,1 milhões $ em juros. As reservas de Bitcoin da empresa diminuíram de cerca de 53 822 para 38 689, uma redução de 28%. A administração deixou claro que a MARA poderá continuar a realizar "vendas periódicas de Bitcoin" em 2026 para cobrir despesas operacionais e novos investimentos.

Mentalidade de Acumulação: Do "Credo do Minerador" ao "Fardo Financeiro"

A "mentalidade de acumulação" dos mineradores de Bitcoin—manter as moedas mineradas a longo prazo em vez de vender de imediato—foi quase um dogma ao longo da história do setor. A lógica central: os custos de produção dos mineradores (eletricidade, depreciação de equipamentos) são denominados em moeda fiduciária, enquanto o output é em Bitcoin. Se acreditarem que o preço do Bitcoin irá valorizar a longo prazo, adiar a venda pode garantir maiores retornos em fiduciário. Esta estratégia foi amplamente validada durante o bull market de 2020–2021.

Mas este credo está agora a desfazer-se de forma sistemática.

Os dados mostram que, entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, as empresas de mineração de Bitcoin cotadas em bolsa venderam mais de 15 000 BTC—o ciclo de liquidação de tesouraria mais intenso desta fase. No mesmo período, o hashprice do Bitcoin caiu abaixo dos 30 $/PH/s e as receitas de taxas de transação recuaram cerca de 70% face aos máximos anteriores.

As pressões sobre a rentabilidade são ainda mais evidentes. Com o Bitcoin a negociar em torno dos 66 825 $, o custo médio de mineração no setor é estimado entre 89 000 $ e 91 000 $ por Bitcoin. Isto significa que uma parte significativa dos mineradores está a operar em prejuízo. Também a rede sente pressão: o hashrate total da rede caiu de 1,16 ZH/s no início do mês para cerca de 990 EH/s—uma descida de 15%. A dificuldade de mineração desceu de cerca de 145 biliões para 133 biliões a 20 de março, menos 8% aproximadamente.

Três ajustamentos negativos consecutivos da dificuldade—tendência não vista desde julho de 2022—confirmam que os mineradores estão a capitular.

Neste contexto, o Bitcoin está a ser redefinido pelos mineradores, passando de "ativo de reserva estratégica" para "liquidez operacional". Como notam vários analistas do setor, os mineradores deixaram de reter Bitcoin como aposta estratégica na valorização futura, utilizando-o agora como instrumento de liquidez para pagar eletricidade, amortizar dívida e manter as operações em funcionamento.

Colapso da Acumulação Empresarial: Dos 69 000 BTC para 1 000 BTC

As vendas dos mineradores são apenas uma vertente do panorama geral. Se analisarmos todas as empresas cotadas que detêm Bitcoin em balanço, o recuo estrutural é ainda mais evidente.

Segundo dados da CryptoQuant divulgados em março de 2026, nos últimos 30 dias, todas as empresas de tesouraria de Bitcoin, exceto a Strategy, adquiriram em conjunto apenas cerca de 1 000 Bitcoin—uma queda impressionante de 99% face ao pico de 69 000 BTC em agosto de 2025. Em termos de quota de mercado, a fatia de compras das empresas não-Strategy caiu de 95% em outubro de 2024 para apenas cerca de 2% atualmente.

Data Compras Mensais de BTC por Empresas Não-Strategy Quota de Mercado
Agosto 2025 (Pico) 69 000 BTC ~95%
Março 2026 ~1 000 BTC ~2%

Fonte: CryptoQuant

A Strategy detém agora cerca de 76% de todo o Bitcoin detido por empresas de tesouraria, representando aproximadamente 3,8% do total de Bitcoin em circulação. Para comparação, esta proporção era de cerca de 74% em novembro de 2025. Enquanto a Strategy continua a comprar, as reservas relativas das restantes empresas continuam a diminuir.

O relatório da Galaxy Digital de julho de 2025 já alertava para este padrão: o modelo de tesouraria empresarial é, na essência, um derivado de liquidez, cuja sustentabilidade depende do prémio da cotação bolsista face às reservas de Bitcoin subjacentes. Quando este prémio diminui, o ciclo inverte-se—preços em queda comprimem o valor líquido dos ativos, reduzem o prémio das ações e tornam a emissão de capital dilutiva em vez de acréscimo. Este cenário concretizou-se quase à risca desde o segundo semestre de 2025 até ao início de 2026.

Vendas de Mineradores: Pressão Financeira ou Mudança Estratégica?

As interpretações de mercado sobre as vendas da Riot dividem-se em dois campos. Alguns veem-nas como resposta passiva à pressão financeira, enquanto outros consideram que fazem parte de uma transformação estratégica proativa.

Do lado da pressão financeira, a produção de Bitcoin da Riot no primeiro trimestre caiu cerca de 4% em termos homólogos, apesar do hashrate instalado ter aumentado de 33,7 EH/s para 42,5 EH/s—um acréscimo de 26%. O contraste entre maior hashrate e menor produção aponta para problemas estruturais: aumento da dificuldade da rede e redução do output por unidade de hashrate. As receitas da Riot com créditos de energia atingiram 21 milhões $ no primeiro trimestre, mais 171% em termos homólogos, enquanto o custo médio de energia baixou para cerca de 0,03 $/kWh, menos 21%. Isto demonstra vantagens de eficiência operacional da Riot.

Em termos estratégicos, o valor vendido pela Riot coincide praticamente com o investimento de capital na primeira fase (112 MW) do centro de dados de IA de Corsicana. O analista da VanEck, Matthew Sigel, assinalou que esta correspondência não é casual. Em janeiro de 2026, a Riot celebrou um contrato de arrendamento de centro de dados por 10 anos com a AMD, com início em 25 MW e previsão de gerar cerca de 311 milhões $ em receitas contratuais, podendo atingir 1 mil milhão $ com três renovações de cinco anos, caso sejam exercidas. O acordo entrou em vigor em janeiro de 2026.

O CEO da Riot, Jason Les, afirmou em janeiro: "Ao libertar o nosso vasto portefólio energético para infraestruturas de centros de dados de elevada procura, estamos a gerar valor significativo para os acionistas."

Sinais de Procura On-Chain em Deterioração

As vendas dos mineradores ocorrem num contexto de contração mais ampla da procura on-chain.

Segundo dados da CryptoQuant de 1 de abril de 2026, a "procura aparente" de Bitcoin—um indicador que mede a nova procura em relação à oferta recém-minerada—tinha caído para cerca de -63 000 BTC no final de março. Isto significa que as novas compras continuam a ficar aquém das moedas transferidas por detentores antigos, sinalizando uma fase de distribuição.

Entretanto, as "baleias" que detêm entre 1 000 e 10 000 BTC passaram de acumulação para distribuição. No último ano, os saldos deste grupo caíram cerca de 188 000 BTC, em contraste com um aumento líquido de 200 000 BTC no mesmo período de 2024. Analistas da CryptoQuant notam que esta tendência se acelerou no quarto trimestre de 2025, e dados históricos mostram que períodos de acumulação negativa sustentada por parte das baleias tendem a coincidir com fases de fraqueza do preço.

Tendências Divergentes: Três Forças em Competição

O panorama atual do mercado empresarial de Bitcoin pode resumir-se em três forças paralelas.

A primeira é a venda coletiva dos mineradores. Empresas como Riot, MARA, Cango, Bitdeer e Core Scientific têm reduzido consistentemente as suas reservas de Bitcoin nos últimos seis meses, motivadas por pressões de rentabilidade, gestão de dívida e realocação de capital para infraestruturas de IA. A MARA alterou oficialmente a sua política de tesouraria, permitindo pela primeira vez vendas discricionárias a partir de março de 2026.

A segunda força é a saída generalizada das tesourarias empresariais. As compras mensais de Bitcoin por empresas cotadas não-Strategy colapsaram do pico de 69 000 para apenas 1 000. Esta quebra reflete não só a mudança nas condições de mercado, mas expõe também a fragilidade estrutural do modelo de tesouraria empresarial—a maioria das empresas que compraram a preços elevados enfrenta agora perdas latentes, sendo forçadas a suspender ou até inverter estratégias de acumulação.

A terceira força é um pequeno grupo de compradores persistentes, liderados pela Strategy. No primeiro trimestre, a Strategy adquiriu cerca de 44 377 Bitcoin, representando aproximadamente 94% de todas as compras empresariais nesse mês. A Metaplanet, cotada no Japão, comprou 5 075 Bitcoin no mesmo período, investindo cerca de 398 milhões $ e elevando as suas reservas totais para 40 177 BTC—tornando-se o terceiro maior detentor empresarial de Bitcoin a nível mundial. O custo médio de aquisição da Metaplanet ronda os 97 593 $ por Bitcoin, o que implica uma perda não realizada de cerca de 32% ao preço atual de 66 825 $.

Análise de Cenários: Possíveis Caminhos de Evolução

Com base na análise acima, o fim da acumulação por parte dos mineradores e a vaga de vendas podem desenrolar-se em três cenários principais:

Cenário 1: Distribuição Contínua (Cenário Base)

Se o preço do Bitcoin se mantiver entre 65 000 $ e 75 000 $, as pressões sobre a rentabilidade dos mineradores não aliviarão de forma significativa. Com custos médios de produção ainda 20–25% acima dos preços de mercado, muitos mineradores continuarão a operar em prejuízo. Neste cenário, as vendas dos mineradores não cessarão a curto prazo, podendo a intensidade aumentar à medida que o preço do Bitcoin oscila—cada queda de 5–10% poderá desencadear nova vaga de vendas. A procura por parte das tesourarias empresariais manter-se-á baixa e a compra concentrada da Strategy não será suficiente para compensar integralmente a pressão vendedora de mineradores e baleias.

Cenário 2: Aceleração do Ajustamento do Hashrate (Reestruturação Setorial)

Num cenário mais extremo—caso o Bitcoin desça abaixo dos 60 000 $—ocorrerá uma vaga mais ampla de capitulação dos mineradores. Historicamente, ajustamentos negativos consecutivos da dificuldade forçam a saída dos mineradores menos eficientes, concentrando o hashrate nos principais operadores. Para mineradores como a Riot e a MARA, que dispõem de vantagens em recursos energéticos e capacidade de transição para IA, isto pode representar uma oportunidade para consolidar o setor a baixo custo. A Riot detém quase 2 gigawatts de capacidade energética—um recurso que operadores de mega centros de dados demoram habitualmente 36–48 meses a garantir. O ajustamento do hashrate acelerará a transição do modelo "minerar e acumular" para uma estrutura diversificada de "minerar-vender-múltiplas fontes de rendimento".

Cenário 3: Catalisadores Externos (Retoma da Procura)

As vendas dos mineradores são, fundamentalmente, um fenómeno do lado da oferta, mas a direção do mercado dependerá, em última análise, da retoma da procura. A atual procura aparente on-chain é de -63 000 BTC, sinalizando um apoio fraco dos compradores. No entanto, o comportamento dos detentores de longo prazo e indicadores como o Miner Position Index estão em mínimos históricos. Caso as condições macroeconómicas melhorem (como o abrandamento de tensões geopolíticas ou uma inversão da política monetária), combinadas com entradas líquidas contínuas em ETF de Bitcoin à vista, a procura poderá recuperar antes de se completar a capitulação do lado da oferta—absorvendo a pressão vendedora na fase de descoberta de preço em vez de a amplificar.

Conclusão

A venda de 3 778 Bitcoin pela Riot Platforms no primeiro trimestre de 2026 pode parecer uma operação financeira trimestral rotineira para uma empresa de mineração. Mas, no contexto da venda de 15 000 BTC pela MARA, da liquidação de 370 BTC pela Empery Digital, da venda de 84 BTC pela Genius Group, das reduções contínuas do Butão e do colapso de 99% da procura das tesourarias empresariais, emerge uma tendência clara: a era da "acumulação" por parte dos mineradores está a chegar ao fim.

Isto não significa que os mineradores duvidem do valor a longo prazo do Bitcoin. Pelo contrário, é o resultado inevitável de uma nova fase do setor—quando os lucros da mineração descem abaixo dos custos de produção, quando os centros de dados de IA podem operar com margens superiores a 80% e quando a fragilidade do modelo de tesouraria empresarial a preços de entrada elevados é exposta, vender deixa de ser uma escolha passiva e passa a ser um passo necessário para a transformação estratégica.

Com o halving do Bitcoin em curso, custos do hashrate a subir de forma rígida e a procura por infraestruturas de IA em forte crescimento, a transição dos mineradores de "acumuladores de Bitcoin" para "operadores de infraestruturas energéticas" está apenas a começar. No segmento das tesourarias empresariais, se a concentração extrema de reservas da Strategy se tornará o "âncora de estabilidade" do Bitcoin ou um risco de concentração a monitorizar dependerá de como estas novas forças estruturais irão, em última instância, redefinir o equilíbrio entre oferta e procura do setor.

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