No início de abril de 2026, a Sei Network concluiu oficialmente a fase final da sua atualização SIP-3. Anteriormente reconhecida pela sua arquitetura dual baseada em Cosmos SDK + EVM, esta blockchain de Layer 1 de elevado desempenho abandonou por completo o ecossistema Cosmos, transformando-se numa blockchain exclusivamente EVM. Desde o momento de destaque do lançamento da mainnet, em 2023, até ao presente, em que o preço corrigiu mais de 60 %, a aposta arrojada da Sei reflete tanto a lógica interna de iteração tecnológica como a ansiedade de sobrevivência num contexto de concorrência crescente entre blockchains de Layer 1.
Este artigo apresenta uma análise multidimensional da substância técnica da SIP-3, do cronograma de migração, das reações do mercado, das colaborações institucionais e do posicionamento competitivo da Sei face a blockchains de referência como a Solana. Em última instância, procura responder a uma questão central: ao abandonar a sua identidade dual e apostar tudo no EVM, quais são, afinal, as reais hipóteses de sucesso da Sei?
Da Arquitetura Dual ao EVM Puro: Simplificação Estrutural Decisiva
A transformação arquitetónica da Sei não foi uma decisão repentina. Em maio de 2025, a comunidade aprovou a proposta de governação SIP-3, autorizando um plano de transição a longo prazo de uma arquitetura dual Cosmos–EVM para uma cadeia exclusivamente EVM. Após quase um ano de implementação faseada, a transição concluiu o lançamento de todos os módulos centrais no primeiro trimestre de 2026.
A execução da SIP-3 decorreu em três etapas. A versão 6.3 foi lançada em testnet em janeiro de 2026, migrando todas as funcionalidades de staking para a interface EVM. Em fevereiro, a versão 6.4 desativou oficialmente as transferências IBC de entrada — tokens nativos Cosmos (incluindo ATOM e USDC.n) deixaram de poder ser transferidos para a Sei. Em março, a versão 6.5 removeu o oráculo nativo da Sei, substituindo-o por soluções externas consolidadas como Chainlink, API3 e Pyth. No início de abril, todas as alterações de código estavam ativas em mainnet. Segundo a documentação oficial, após esta atualização, apenas endereços EVM podem iniciar transações e todas as funções de gestão de mensagens Cosmos foram removidas e marcadas como obsoletas.
O núcleo da implementação da SIP-3 ficou concluído no final do primeiro trimestre de 2026 e, desde o início de abril, a Sei Network opera exclusivamente como uma cadeia EVM.
A justificar esta transformação, Jay Jog, cofundador da Sei Labs, recorreu a uma analogia clássica da engenharia automóvel: para tornar um carro mais rápido, pode-se aumentar a potência ou reduzir o peso. Para atingir verdadeiramente a velocidade, é preciso fazer ambas. A SIP-3 representa a redução do peso; a atualização Giga, o aumento de potência. Segundo a Sei Labs, esta migração eliminou centenas de milhares de linhas de código relacionadas com Cosmos, reduzindo significativamente a complexidade de manutenção do protocolo e a redundância dos caminhos de execução.
Do ponto de vista da engenharia, abandonar a arquitetura dual significa que a Sei deixa de ter de manter dois ambientes de execução. A equipa pode agora concentrar recursos na otimização do desempenho EVM. A principal contrapartida é o sacrifício da interoperabilidade com o ecossistema Cosmos em prol de maior eficiência de execução e de uma barreira de entrada inferior para programadores.
Cronograma da SIP-3 e Reação do Mercado
| Data | Evento Principal | Descrição |
|---|---|---|
| Maio 2025 | Aprovação da Proposta SIP-3 | Comunidade aprova transição da arquitetura dual, abrindo caminho para a Sei Giga |
| Jan 2026 | Lançamento da Versão 6.3 | Staking EVM ativado, implementação em testnet concluída |
| Fev 2026 | Execução da Versão 6.4 | Transferências IBC de entrada desativadas, tokens Cosmos deixam de poder ser transferidos |
| Mar 2026 | Implementação da Versão 6.5 | Oráculo nativo removido, integração de Chainlink/Pyth/API3 |
| Início Abr 2026 | SIP-3 Completamente Implementada | Gestão de mensagens Cosmos obsoleta, cadeia EVM pura ativa |
Durante a execução da SIP-3, as reações do mercado foram bastante polarizadas. Por um lado, o anúncio da atualização provocou uma recuperação de curto prazo superior a 10 % no preço do token SEI. Por outro, dados on-chain mostram que o valor total bloqueado (TVL) da Sei caiu cerca de 7,3 % neste período, com parte da liquidez a sair temporariamente à medida que ativos migraram do ecossistema Cosmos.
A 7 de abril de 2026, segundo dados de mercado da Gate, a Sei (SEI) negociava a 0,05265 $ com um volume de 24 horas de 296 590 $, uma capitalização de mercado de 3,6061 milhões $ e uma quota de mercado de 0,021 %. O preço da SEI variou -2,50 % nas últimas 24 horas, +2,19 % nos últimos 7 dias, -17,84 % nos últimos 30 dias e -63,66 % no último ano. O máximo histórico é de 1,14 $ e o mínimo absoluto é de 0,04847 $. A oferta em circulação é de 6,85 mil milhões SEI, com oferta total e máxima de 10 mil milhões SEI. O sentimento de mercado é considerado neutro.
Narrativas em Confronto: O Que Está o Mercado a Debater?
A mudança arquitetónica da Sei gerou duas narrativas fortemente opostas no mercado.
A Perspetiva do Compromisso: Vitória do EVM, Sei Perde Diferenciação
Os críticos argumentam que, ao abandonar o ecossistema Cosmos em favor do EVM, a Sei deixou para trás o seu principal fator distintivo. O Cosmos assenta no protocolo IBC, privilegiando a soberania e flexibilidade das cadeias de aplicações, enquanto o EVM se destaca pelos efeitos de rede dos programadores Ethereum e pela agregação de liquidez. Para alguns, este movimento da Sei é um voto implícito de desconfiança no futuro do Cosmos. Em plataformas como a Gate Square, há quem comente que a arquitetura dual era suposto ser o argumento diferenciador — agora é um compromisso. O EVM é sólido, mas seguir a maioria parece pouco inspirador, e abandonar de forma tão definitiva o design original é desconfortável para os primeiros arquitetos do projeto.
A Perspetiva Pragmática: As Blockchains Devem Estar Onde Estão os Programadores
Os defensores sublinham a predominância irreversível do EVM no ecossistema de programadores — mais de 90 % do desenvolvimento de aplicações descentralizadas ocorre em cadeias compatíveis com EVM. Embora a Sei já tivesse introduzido execução EVM paralela com a v2, manter a camada Cosmos obrigava os programadores a dominar dois paradigmas, criando uma barreira cognitiva elevada. Ao migrar para EVM puro, os programadores podem utilizar ferramentas padrão como MetaMask, Hardhat e Foundry, implementando contratos Solidity sem adaptações. Deste ponto de vista, sair do Cosmos não é um compromisso, mas sim uma resposta racional às exigências do mercado.
A Perspetiva Especulativa: Conseguem as Melhorias Técnicas Captar Valor?
Uma visão mais neutra, mas profunda, defende que a arquitetura técnica é apenas um dos fatores; a captura de valor é outro. Atualmente, a Sei regista mais de 1,4 milhões de endereços ativos diários — o valor mais elevado entre as cadeias compatíveis com EVM —, mas o TVL ronda apenas os 185 a 250 milhões $, muito aquém do que a base de utilizadores sugeriria. Esta discrepância indica que grande parte da atividade on-chain pode ser de baixo valor ou especulativa, faltando ainda casos de uso financeiros robustos. Se a SIP-3 conseguirá alterar este cenário dependerá do ritmo da próxima atualização Giga e da implementação de aplicações institucionais de alta qualidade.
Atualização Sei Autobahn: O Compromisso Técnico das 200 000 TPS
Com a simplificação da SIP-3 concluída, o próximo marco da Sei é a atualização Giga, centrada no desempenho. O mecanismo de consenso Sei Autobahn é o elemento central, visando aumentar a capacidade da rede para mais de 200 000 TPS, mantendo a finalização de bloco abaixo dos 400 milissegundos.
Tecnicamente, a Sei utiliza um modelo de execução paralela otimista, conceptualmente semelhante ao mecanismo Sealevel da Solana — ambos permitem a execução simultânea de múltiplas transações não conflitantes. A diferença reside no facto de, na Sei, a paralelização ser automática; os programadores não precisam de declarar explicitamente dependências de contas, como acontece na Solana. Segundo a documentação oficial, o tempo de bloco da Sei EVM é de 400 milissegundos, igual ao da Solana, mas a finalização (conclusão num único bloco) é muito mais rápida do que os 2,5 a 4,5 segundos da Solana.
No que respeita às ferramentas para programadores, em janeiro de 2026, a Sei lançou uma malha de infraestrutura de mercado, integrando diretamente fornecedores de infraestrutura EVM de referência como Alchemy, Infura e QuickNode na sua blockchain paralelizada. Estes fornecedores processam, em conjunto, mais de 100 mil milhões $ em volume anual de transações, servindo aplicações líderes como OpenSea e MetaMask. Adicionalmente, integrações de carteiras embutidas da Privy e Dynamic permitem, segundo relatos, reduzir as taxas de abandono na criação de carteiras de 70–90 % para menos de 20 %.
Embora o roteiro técnico da atualização Giga seja viável, o objetivo das 200 000 TPS carece ainda de validação sob carga real em mainnet. Não existem, até ao momento, relatórios independentes de terceiros sobre o desempenho, pelo que este valor deve ser encarado como meta de design e não como desempenho efetivamente atingido.
Narrativa Institucional: Podem as Parcerias RWA Ancorar Valor?
Para além da SIP-3, a outra grande narrativa da Sei centra-se na aposta firme na tokenização de ativos do mundo real (RWA). Desde o segundo semestre de 2025, a Sei anunciou parcerias com vários gestores de ativos de referência.
Através da plataforma Securitize, o ICS U.S. Dollar Liquidity Fund da BlackRock e o Brevan Howard Macro Fund foram tokenizados e lançados na Sei. A Apollo Global Management (com cerca de 840 mil milhões $ em ativos sob gestão em 2025) emitiu fundos de crédito diversificados ACRED tokenizados na Sei via Securitize. Também a Hamilton Lane, entre outros, lançou produtos de fundos tokenizados e em conformidade na Sei.
Apesar de públicas, estas parcerias permanecem, na sua maioria, numa fase inicial. Os ativos sob gestão on-chain totalizam atualmente cerca de 100 milhões $ — uma escala piloto face aos múltiplos biliões $ sob gestão dos parceiros.
Do ponto de vista estratégico, o objetivo é deslocar a concorrência entre blockchains de Layer 1 da "corrida ao TPS" para a capacidade de custódia de ativos — quem conseguir custodiar mais capital real e conquistar a confiança institucional terá vantagem. Ao contrário da Solana, que aposta em aplicações para o consumidor, ou da Sui, que privilegia a inovação arquitetónica, a Sei procura posicionar-se como camada de liquidação para ativos institucionais.
Se a narrativa RWA se traduzirá em atividade económica on-chain sustentada dependerá de três fatores: clareza regulatória, capacidade da Securitize para captar mais gestores de ativos e aptidão da Sei para suportar liquidação institucional de alta frequência. Todos estes vetores estão ainda em fase inicial de validação, com incerteza significativa.
Sei vs. Solana: Caminhos Divergentes ou Destinos Convergentes?
Comparar Sei e Solana equivale, na essência, a debater duas estratégias de compatibilidade EVM.
A principal vantagem da Solana é o seu ecossistema de utilizadores de larga escala e o conjunto maduro de aplicações DeFi. A Solana regista também um elevado número de endereços ativos diários, mas, para compatibilidade EVM, depende de soluções de terceiros como a Neon EVM, não de suporte nativo. A Sei, por seu lado, oferece EVM nativo e execução paralela — os programadores podem implementar contratos Solidity diretamente, com velocidades próximas das da Solana, sem camadas de compatibilidade.
Estas opções técnicas refletem estratégias distintas de ecossistema: a Solana mantém um ambiente de execução independente (Sealevel + SVM), fazendo a ponte para liquidez EVM através de camadas de compatibilidade; a Sei adota integralmente os padrões EVM, sacrificando a singularidade técnica por uma barreira de entrada mais baixa para programadores. No curto prazo, a estratégia da Sei tende a atrair mais programadores Ethereum; a longo prazo, a independência da Solana permite maior inovação ao nível do protocolo.
A própria documentação oficial da Sei inclui um guia de migração para programadores Solana que pretendam transitar para a Sei EVM, destacando a paralelização familiar e os tempos de bloco de 400 ms como argumentos principais. Isto sugere que a Sei não vê a Solana como concorrente direta, mas como um ecossistema de onde pode captar recursos de desenvolvimento.
Análise de Cenários: Três Caminhos Possíveis para a Sei
Cenário 1 | Trajetória Otimista
A atualização Giga atinge as 200 000 TPS em condições reais de mainnet, as parcerias RWA escalam para além da fase piloto e o capital institucional começa a fluir de forma consistente. Neste cenário, a vantagem da Sei em atividade de utilizadores (1,4 milhões de endereços ativos diários) traduz-se em crescimento do TVL e num preço de token que reflete a atividade da rede. Condições de sucesso: ausência de falhas técnicas graves na atualização e adoção da Sei como cadeia de liquidação principal por pelo menos 3–5 gestores de ativos de referência.
Cenário 2 | Trajetória Base
A atualização Giga atinge parcialmente os objetivos de desempenho (por exemplo, 50 000–100 000 TPS) e as parcerias RWA mantêm-se estáveis, mas com expansão lenta. A Sei assegura um lugar entre as cadeias EVM de alto desempenho, mas enfrenta dificuldades em desafiar a Solana e as L2 Ethereum pela liderança. O TVL cresce de forma moderada e o preço do token acompanha os ciclos de mercado, com avaliações alinhadas com projetos semelhantes.
Cenário 3 | Trajetória Pessimista
A atualização Giga enfrenta obstáculos técnicos imprevistos ou as parcerias institucionais estagnam devido a desafios regulatórios ou de mercado. A liquidez perdida do Cosmos não é compensada por novas entradas EVM e a atividade da rede diminui. Neste cenário, a simplificação da SIP-3 não gera crescimento e a Sei perde competitividade diferenciadora num mercado EVM saturado.
Conclusão
A decisão da Sei de abandonar o Cosmos e adotar integralmente o EVM é uma das mudanças arquitetónicas mais debatidas no panorama das blockchains de Layer 1 em 2026. Do ponto de vista técnico, a execução da SIP-3 foi clara e atempada, com as capacidades de engenharia da equipa validadas através de implementações faseadas. No plano de mercado, a divergência entre preço e dados de utilizadores evidencia dúvidas persistentes quanto à captura de valor. Em termos competitivos, a Sei seguiu um caminho distinto, mas não necessariamente divergente, da Solana — se a compatibilidade nativa EVM e a eficiência da execução paralela conseguirão desbloquear verdadeiramente o potencial da comunidade de programadores Ethereum será o teste decisivo desta aposta ousada.
Para os observadores do setor, a transformação da Sei constitui um caso de estudo relevante: num mercado de Layer 1 cada vez mais focado na compatibilidade e na experiência do programador, o que pesará mais — diferenciação técnica ou pragmatismo estratégico de ecossistema? A resposta poderá não estar no código da SIP-3, mas nas escolhas que programadores e instituições farão, com os seus próprios recursos, nos próximos 12 a 18 meses.


