Alphabet surpreendeu os mercados com uma emissão de obrigações de 20 mil milhões de dólares, muito acima das expectativas, à medida que os hyperscalers aumentam o seu endividamento recorde para financiar investimentos massivos em inteligência artificial (IA).
Num movimento que indica seja uma confiança suprema ou uma corrida armamentista desesperada, a empresa-mãe do Google, Alphabet (GOOGL), recorreu ao mercado de obrigações de alta qualidade dos EUA a 9 de fevereiro para uma emissão impressionante de 20 mil milhões de dólares. A venda, que ultrapassou as expectativas iniciais de 15 mil milhões devido à enorme procura dos investidores, faz parte de um boom mais amplo de empréstimos por parte dos “hyperscalers”, que, segundo analistas, está a remodelar fundamentalmente o panorama de crédito.
No entanto, a verdadeira onda de choque não veio do montante em dólares, mas da duração. Segundo um relatório do Financial Times, a Alphabet estava a ponderar uma emissão inaugural de obrigações em libras esterlinas que poderia incluir um título de 100 anos antes do anúncio de segunda-feira. Se concretizado, seria a primeira iniciativa deste género por uma gigante tecnológica desde os finais dos anos 1990, garantindo capital até 2126.
Os Seis Grandes hyperscalers—Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft, Oracle e Apple—estão envolvidos num dos maiores ciclos de despesas de capital da história, segundo veteranos do mercado. Prevê-se que gastem entre 500 mil milhões e 650 mil milhões de dólares este ano, com empréstimos de até 400 mil milhões, um aumento face aos 121 mil milhões de 2025.
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Segundo um relatório da Reuters, a emissão total de obrigações corporativas nos EUA deverá atingir um recorde de 2,46 biliões de dólares em 2026, um aumento de 11,8% em relação ao ano anterior.
“IA abriu novas fontes de capital que nem sequer estavam na radar há um ano,” afirma Karthik Nandyal, cofundador da Credcore. “Os modelos de precificação e risco de início de 2025 já estão a ser descartados.”
Entretanto, a ideia de uma obrigação de 100 anos acendeu uma tempestade de opiniões nas redes sociais e fóruns financeiros, com o sentimento dividido entre admiração e ceticismo intenso. No X, o famoso investidor do “Big Short”, Michael Burry, destacou a iniciativa como um potencial pico de mercado. Ele fez uma comparação com a emissão de obrigações de 100 anos da Motorola em 1997—o mesmo ano em que a empresa atingiu o seu pico histórico antes de uma longa queda. “A confiança muitas vezes mascara a próxima queda,” comentou aos seus seguidores.
No Reddit, os utilizadores questionam a durabilidade de qualquer empresa tecnológica por mais de um século. Um comentário destacado dizia: “Emprestar dinheiro a uma empresa tecnológica por 100 anos é uma aposta de que a IA não vai perturbar o Google da forma que o Google perturbou a lista telefónica.” Por outro lado, alguns analistas defendem que a obrigação é uma jogada de mestre, aproveitando o “apetite estrutural” dos fundos de pensões e seguradoras do Reino Unido, que precisam de ativos de duração ultra longa para corresponder às suas responsabilidades de um século.