Stablecoin ou ativo de risco? A verdadeira identidade do Tether
Tether($USDT) nos últimos dois anos e meio gerou inúmeras controvérsias, sendo que a questão central sempre aponta para o mesmo dilema: esta entidade possui reservas suficientes para suportar a emissão de tokens no valor de 174,5 bilhões de dólares?
À primeira vista, a Tether International possui ativos no valor de 181,2 bilhões de dólares, o que representa um excedente de 6,8 bilhões de dólares em relação às dívidas de 174,5 bilhões de dólares. Mas essa simples conta oculta uma questão financeira mais complexa: o padrão de avaliação de liquidez de empresas tradicionais não se aplica a instituições financeiras.
Ao avaliar um banco ou uma instituição similar, não basta verificar se os ativos são maiores que os passivos. O aspecto realmente crucial é: a entidade possui capital de risco suficiente para absorver possíveis oscilações e perdas na carteira de ativos?
Compreendendo a lógica de ponderação de risco das instituições financeiras
O quadro regulatório financeiro tradicional (como o acordo de Basileia) exige que as instituições financeiras atribuam ponderações de risco a diferentes tipos de ativos. Essa ponderação (risk weighting) é importante porque reflete o risco real de cada ativo em condições de estresse.
Por exemplo:
Dinheiro em caixa e instrumentos de mercado monetário de curto prazo: ponderação de risco próxima de 0%, devido ao risco de inadimplência extremamente baixo
Metais preciosos como ouro: ponderação de risco geralmente entre 100% e 250%, devido ao risco de volatilidade de mercado
Bitcoin: segundo o padrão mais rigoroso de Basileia, a ponderação de risco pode chegar a 1.250%
Por que esse cálculo? Porque uma instituição financeira precisa manter capital suficiente para cobrir possíveis quedas de valor desses ativos em situações extremas.
Composição de ativos do Tether e avaliação de risco
A distribuição de ativos do Tether é aproximadamente a seguinte:
Cerca de 77% em dólares em dinheiro e instrumentos de mercado monetário (risco de ponderação muito baixo)
Cerca de 13% em metais preciosos e ativos digitais (principalmente ouro e Bitcoin)
O restante em empréstimos e outros investimentos (informação pouco transparente)
O problema principal está nas categorias dois e três.
Posse de ouro: segundo a prática bancária, o ouro deveria receber uma ponderação de risco entre 100% e 250%. Como o Tether detém uma posição significativa em ouro, essa parte dos ativos exige maior reserva de capital.
Risco do Bitcoin: se aplicarmos estritamente o padrão de Basileia, o BTC precisaria de uma reserva de capital 1:1 — ou seja, capital equivalente para “cobrir” esses ativos. Contudo, essa abordagem é excessivamente conservadora para instituições que atendem clientes principais no mercado de criptomoedas. Uma abordagem mais realista seria ajustar a ponderação de risco com base na volatilidade do BTC. Como a volatilidade do BTC (45%-70% ao ano) é de 3 a 5 vezes maior que a do ouro, uma ponderação de risco razoável estaria entre 300% e 500%, e não 1.250%.
Carteira de empréstimos: falta total de transparência. Sem informações sobre tomadores, prazos ou garantias, uma estimativa conservadora atribuiria uma ponderação de risco de 100%.
Cálculo da verdadeira capitalização do Tether
De acordo com o padrão de Basileia, é necessário calcular dois indicadores principais:
1. Faixa de Ativos Ponderados pelo Risco (RWA)
Dependendo do tratamento dado ao Bitcoin:
Cenário conservador (BTC totalmente ponderado): RWA aproximadamente 175,3 bilhões de dólares
Cenário moderado (BTC com ponderação de risco de 400%): RWA aproximadamente 62,3 bilhões de dólares
Cenário otimista (BTC com ponderação de risco de 200%): RWA aproximadamente 62 bilhões de dólares
2. Avaliação do Índice de Capitalização (TCR)
Dividindo o patrimônio líquido de 6,8 bilhões de dólares do Tether pelos RWA:
Cenário conservador: TCR = 3,87%
Cenário moderado: TCR = 10,89%
Cenário otimista: TCR = 10,96%
Segundo o padrão de Basileia, o TCR mínimo deve ser de 8%. Instituições financeiras globais de grande porte geralmente mantêm entre 15% e 18%.
Lacuna de capital do Tether
Se adotarmos a hipótese moderada (ponderação de risco de 400% para o BTC), o Tether teria um TCR de aproximadamente 10,89%, ligeiramente acima do mínimo regulatório.
Por outro lado, se compararmos com os padrões de grandes bancos globais, o Tether deveria manter um índice entre 12% e 15%. Isso implica que:
O Tether precisaria de aproximadamente 4,5 bilhões de dólares adicionais de capital para atingir um nível intermediário do setor.
Como chegamos a esse número: para alcançar um TCR de 12%, considerando RWA de 62,3 bilhões de dólares, o capital necessário seria cerca de 7,48 bilhões de dólares. Atualmente, possui apenas 6,8 bilhões, resultando em uma lacuna de aproximadamente 680 milhões de dólares. Para uma margem mais conservadora, essa lacuna chega a cerca de 4,5 bilhões de dólares.
Buffer de lucros do Tether: é suficiente?
O Tether argumenta que possui lucros no grupo. Segundo dados recentes:
Lucro líquido de mais de 130 bilhões de dólares em 2024
Lucros acumulados nos três primeiros trimestres de 2025 superiores a 100 bilhões de dólares
Patrimônio total do grupo acima de 200 bilhões de dólares
Esses números parecem elevados. Mas a questão central é: esses lucros representam, legalmente, uma reserva de risco para os detentores de USDT?
A resposta é ambígua. O Tether utiliza uma estrutura de “isolamento de ativos”: as reservas do USDT estão legalmente separadas de outros investimentos do grupo (como energias renováveis, mineração de Bitcoin, inteligência artificial, imóveis, mineração de ouro, etc.). Embora o Tether possa, em momentos de crise, transferir esses lucros para a entidade USDT, isso não é uma obrigação legal.
Em outras palavras, os 200 bilhões de dólares de patrimônio do grupo funcionam mais como uma “reserva oculta” do que uma garantia legal.
Conclusão: equilíbrio entre risco e realidade
Do ponto de vista estrito do padrão de Basileia, o Tether atende exatamente ao mínimo, mas está longe do padrão de mercado. Na prática, seus enormes lucros oferecem uma margem de segurança adicional.
A questão não é “o Tether vai falir?”, mas sim “em que condições o buffer de capital do Tether é suficiente para enfrentar situações extremas?”.
Se você exigir que o Tether cumpra os padrões de capital de grandes instituições financeiras globais, a lacuna de 4,5 bilhões de dólares é real. Mas, considerando sua posição de mercado e capacidade de gerar lucros, essa lacuna pode não ser fatal — pelo menos por enquanto.
A avaliação final depende do grau de confiança dos investidores na gestão do risco pelo Tether, e essa é a razão fundamental pela qual o “stablecoin controverso” nunca consegue se livrar das dúvidas.
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Revelando a verdade sobre as reservas do Tether: análise do índice de capitalização e lacuna de 4,5 bilhões de dólares
Stablecoin ou ativo de risco? A verdadeira identidade do Tether
Tether($USDT) nos últimos dois anos e meio gerou inúmeras controvérsias, sendo que a questão central sempre aponta para o mesmo dilema: esta entidade possui reservas suficientes para suportar a emissão de tokens no valor de 174,5 bilhões de dólares?
À primeira vista, a Tether International possui ativos no valor de 181,2 bilhões de dólares, o que representa um excedente de 6,8 bilhões de dólares em relação às dívidas de 174,5 bilhões de dólares. Mas essa simples conta oculta uma questão financeira mais complexa: o padrão de avaliação de liquidez de empresas tradicionais não se aplica a instituições financeiras.
Ao avaliar um banco ou uma instituição similar, não basta verificar se os ativos são maiores que os passivos. O aspecto realmente crucial é: a entidade possui capital de risco suficiente para absorver possíveis oscilações e perdas na carteira de ativos?
Compreendendo a lógica de ponderação de risco das instituições financeiras
O quadro regulatório financeiro tradicional (como o acordo de Basileia) exige que as instituições financeiras atribuam ponderações de risco a diferentes tipos de ativos. Essa ponderação (risk weighting) é importante porque reflete o risco real de cada ativo em condições de estresse.
Por exemplo:
Por que esse cálculo? Porque uma instituição financeira precisa manter capital suficiente para cobrir possíveis quedas de valor desses ativos em situações extremas.
Composição de ativos do Tether e avaliação de risco
A distribuição de ativos do Tether é aproximadamente a seguinte:
O problema principal está nas categorias dois e três.
Posse de ouro: segundo a prática bancária, o ouro deveria receber uma ponderação de risco entre 100% e 250%. Como o Tether detém uma posição significativa em ouro, essa parte dos ativos exige maior reserva de capital.
Risco do Bitcoin: se aplicarmos estritamente o padrão de Basileia, o BTC precisaria de uma reserva de capital 1:1 — ou seja, capital equivalente para “cobrir” esses ativos. Contudo, essa abordagem é excessivamente conservadora para instituições que atendem clientes principais no mercado de criptomoedas. Uma abordagem mais realista seria ajustar a ponderação de risco com base na volatilidade do BTC. Como a volatilidade do BTC (45%-70% ao ano) é de 3 a 5 vezes maior que a do ouro, uma ponderação de risco razoável estaria entre 300% e 500%, e não 1.250%.
Carteira de empréstimos: falta total de transparência. Sem informações sobre tomadores, prazos ou garantias, uma estimativa conservadora atribuiria uma ponderação de risco de 100%.
Cálculo da verdadeira capitalização do Tether
De acordo com o padrão de Basileia, é necessário calcular dois indicadores principais:
1. Faixa de Ativos Ponderados pelo Risco (RWA)
Dependendo do tratamento dado ao Bitcoin:
2. Avaliação do Índice de Capitalização (TCR)
Dividindo o patrimônio líquido de 6,8 bilhões de dólares do Tether pelos RWA:
Segundo o padrão de Basileia, o TCR mínimo deve ser de 8%. Instituições financeiras globais de grande porte geralmente mantêm entre 15% e 18%.
Lacuna de capital do Tether
Se adotarmos a hipótese moderada (ponderação de risco de 400% para o BTC), o Tether teria um TCR de aproximadamente 10,89%, ligeiramente acima do mínimo regulatório.
Por outro lado, se compararmos com os padrões de grandes bancos globais, o Tether deveria manter um índice entre 12% e 15%. Isso implica que:
O Tether precisaria de aproximadamente 4,5 bilhões de dólares adicionais de capital para atingir um nível intermediário do setor.
Como chegamos a esse número: para alcançar um TCR de 12%, considerando RWA de 62,3 bilhões de dólares, o capital necessário seria cerca de 7,48 bilhões de dólares. Atualmente, possui apenas 6,8 bilhões, resultando em uma lacuna de aproximadamente 680 milhões de dólares. Para uma margem mais conservadora, essa lacuna chega a cerca de 4,5 bilhões de dólares.
Buffer de lucros do Tether: é suficiente?
O Tether argumenta que possui lucros no grupo. Segundo dados recentes:
Esses números parecem elevados. Mas a questão central é: esses lucros representam, legalmente, uma reserva de risco para os detentores de USDT?
A resposta é ambígua. O Tether utiliza uma estrutura de “isolamento de ativos”: as reservas do USDT estão legalmente separadas de outros investimentos do grupo (como energias renováveis, mineração de Bitcoin, inteligência artificial, imóveis, mineração de ouro, etc.). Embora o Tether possa, em momentos de crise, transferir esses lucros para a entidade USDT, isso não é uma obrigação legal.
Em outras palavras, os 200 bilhões de dólares de patrimônio do grupo funcionam mais como uma “reserva oculta” do que uma garantia legal.
Conclusão: equilíbrio entre risco e realidade
Do ponto de vista estrito do padrão de Basileia, o Tether atende exatamente ao mínimo, mas está longe do padrão de mercado. Na prática, seus enormes lucros oferecem uma margem de segurança adicional.
A questão não é “o Tether vai falir?”, mas sim “em que condições o buffer de capital do Tether é suficiente para enfrentar situações extremas?”.
Se você exigir que o Tether cumpra os padrões de capital de grandes instituições financeiras globais, a lacuna de 4,5 bilhões de dólares é real. Mas, considerando sua posição de mercado e capacidade de gerar lucros, essa lacuna pode não ser fatal — pelo menos por enquanto.
A avaliação final depende do grau de confiança dos investidores na gestão do risco pelo Tether, e essa é a razão fundamental pela qual o “stablecoin controverso” nunca consegue se livrar das dúvidas.