Cadeia de atividades criminosas de fraudes em criptomoedas exposta: 28 mil milhões de dólares em fundos ilegais direcionados para plataformas de negociação

Nos últimos dois anos, as bolsas de criptomoedas globais tornaram-se na “caixa multibanco” dos criminosos. Uma investigação de grande impacto, realizada em parceria entre o The New York Times e a Aliança Internacional de Jornalistas Investigativos, revelou que pelo menos 28 mil milhões de dólares provenientes de hackers, grupos de fraude e extorsionadores estão a fluir continuamente para as principais plataformas de negociação globais.

A origem deste montante é variada — desde atividades de branqueamento de dinheiro por parte de grupos de crime cibernético na Coreia do Norte, até fraudes que se estendem do estado de Minnesota, EUA, até ao Sudeste Asiático. Ainda mais preocupante é o facto de, apesar do setor de criptomoedas estar a tornar-se cada vez mais mainstream, os reguladores estarem a enfraquecer a repressão a estes crimes.

A escala de fraudes em criptomoedas é alarmante

Os dados da investigação são chocantes. Segundo estatísticas da Chainalysis, em 2024, as bolsas de criptomoedas a nível mundial receberam pelo menos 4 mil milhões de dólares em fundos relacionados com fraudes. A equipa de investigação entrevistou 24 vítimas de fraudes em criptomoedas, cujo dinheiro roubado acabou por ser canalizado para plataformas de topo do setor.

Um pai de Minnesota tornou-se um exemplo típico de vítima. Seguindo as orientações de uma firma financeira familiar de Seattle, investiu em criptomoedas, mas foi enganado e teve 1,5 milhões de dólares roubados. Mais de 500 mil dólares acabaram por entrar numa grande bolsa de negociação.

As fraudes em criptomoedas tornaram-se um problema global. Dados do FBI indicam que, no ano passado, as fraudes de investimento em criptomoedas causaram perdas de até 5,8 mil milhões de dólares às vítimas. Entre as táticas mais comuns está o esquema “pump and dump” (os criminosos criam confiança com as vítimas e depois induzem-nas a investir em projetos falsos). Muitos idosos, executivos de empresas e até banqueiros têm sido vítimas.

As plataformas de negociação tornaram-se no último ponto de lavagem de dinheiro

As bolsas de criptomoedas desempenham um papel crucial na cadeia de fraudes — são o canal conveniente através do qual os criminosos convertem fundos ilegais em dinheiro real.

A investigação revelou que um grande grupo financeiro do Camboja (já listado pelo Departamento do Tesouro dos EUA como entidade envolvida em atividades criminosas) manteve relações financeiras constantes com várias das principais plataformas de negociação. Entre julho de 2024 e julho de 2025, esse grupo transferiu mais de 400 milhões de dólares para uma plataforma líder do setor. Mesmo após a emissão de uma ordem de proibição pelo Departamento do Tesouro em 1 de maio, as transferências continuaram — em dois meses e meio, o grupo transferiu pelo menos 77 milhões de dólares para essa plataforma.

Ainda mais surpreendente foi a atividade de branqueamento de dinheiro por hackers norte-coreanos. Em fevereiro, uma empresa de rastreamento de criptomoedas descobriu que, após roubar 1,5 mil milhões de dólares, hackers norte-coreanos converteram Ethereum em Bitcoin e transferiram 900 milhões de dólares para cinco contas de depósito numa plataforma de topo. O CEO da ChainArgos, uma empresa de rastreamento de criptomoedas, afirmou que essa plataforma acabou por ser o terminal da cadeia de lavagem de dinheiro, ajudando a limpar centenas de milhões de dólares em fundos ilícitos.

Contas falsas em grande escala e KYC como mera formalidade

Surpreendentemente, o mecanismo de verificação de identidade (KYC) das plataformas parece robusto, mas na prática apresenta muitas falhas.

Num caso de fraude em criptomoedas em Minnesota, a investigação revelou que dois perfis associados numa plataforma eram completamente inexplicáveis. Um deles tinha uma foto de uma mulher de pé diante de uma parede de chapa ondulada, com endereço registado numa aldeia na China. Em poucos meses, esse perfil movimentou mais de 700 mil dólares.

O outro perfil foi registado em nome de uma mulher de 24 anos de uma zona rural de Mianmar. Em nove meses, movimentou mais de 200 mil dólares — uma quantia mais de mil vezes superior à média salarial anual na Mianmar, o que é claramente anormal. Um responsável de uma organização sem fins lucrativos contra fraudes afirmou que essas duas mulheres provavelmente eram “transportadoras de fundos”, tendo os seus dados pessoais sido roubados por criminosos.

As vítimas não têm para onde recorrer. Uma mulher de 58 anos de Alberta, Canadá, chamada Carrissa Weber, teve 25 mil dólares roubados pelos criminosos, cujo dinheiro foi transferido para uma plataforma global. Essa plataforma alegou que a conta relacionada tinha sido colocada sob vigilância desde o ano passado, devido a “características suspeitas”, mas só foi congelada em outubro — seis meses após Weber ter sido enganada.

Pontos de troca de criptomoedas: novos centros de lavagem de dinheiro a nível global

Em Kiev, Hong Kong, Dubai e outros locais, estão a surgir lojas físicas de troca de criptomoedas de forma discreta. Nesses locais, muitas vezes, não é necessário apresentar documentos de identificação para trocar grandes quantidades de criptomoedas por dólares, euros ou outras moedas fiduciárias, realizando transações em dinheiro vivo.

Dados da Crystal Intelligence indicam que, no ano passado, as lojas de troca de criptomoedas em Hong Kong processaram transações superiores a 2,5 mil milhões de dólares. Empresas de análise de criptomoedas revelam que, no ano passado, as principais plataformas receberam 531 milhões de dólares dessas lojas.

Um jornalista realizou uma investigação de campo na Ucrânia. Após transferir 1200 dólares em criptomoedas via Telegram, recebeu em poucos minutos uma pilha de dinheiro em notas, amarradas com uma borracha grossa, sem recibos ou registos de conversa. Essas lojas tornaram-se locais perfeitos para criminosos converterem ativos digitais em dinheiro.

Em Dubai, num edifício de escritórios de luxo, um jornalista viu um cliente trocar 6000 dólares em criptomoedas por uma pilha de dinheiro local. O endereço de criptomoeda dessa troca indicava que, em duas semanas de setembro, tinha recebido mais de 2 milhões de dólares.

A regulação, em vez de reforçar, está a enfraquecer

Ironicamente, enquanto o setor de criptomoedas cresce exponencialmente, com volumes diários de transações legais a atingir dezenas de bilhões de dólares, as forças policiais estão a diminuir a repressão.

Em abril deste ano, o Departamento de Justiça dos EUA dissolveu uma equipa especializada em combate ao crime em criptomoedas, alegando que os procuradores deveriam concentrar-se em combater terroristas e traficantes, deixando de responsabilizar as plataformas que suportam atividades ilegais.

Essa mudança deixou as autoridades incapazes de lidar com a quantidade crescente de atividades ilícitas. Um responsável de uma empresa de investigação em criptomoedas afirmou: “As forças de aplicação da lei não conseguem lidar com a situação atual de atividades ilegais neste setor, e esse estado de coisas não pode continuar.”

O duplo padrão na conformidade das plataformas

É confuso que algumas plataformas, apesar de terem sido multadas por violações regulatórias, continuem a aceitar fundos suspeitos após acordos de resolução.

Uma grande plataforma do setor foi multada em 4,3 mil milhões de dólares por transações com organizações terroristas, e afirmou que não toleraria atividades ilícitas. No entanto, investigações mostram que, após o acordo, continuaram a receber fundos suspeitos de várias origens.

Outra plataforma global, que em fevereiro deste ano chegou a um acordo de 504 milhões de dólares com o governo dos EUA por violar leis de transferência de fundos, recebeu mais de 220 milhões de dólares em fundos suspeitos nos cinco meses seguintes ao acordo. O seu diretor jurídico afirmou que implementou mecanismos de conformidade, mas a eficácia é questionável.

Um especialista em criptomoedas da Universidade do Texas apontou a raiz do problema: “Se expulsarmos os criminosos das plataformas, estas perderão uma grande fatia de receita. Assim, na verdade, eles têm um motivo para tolerar a continuidade dessas atividades ilegais.”

Conclusão

A investigação revela apenas a ponta do iceberg da cadeia de fraudes em criptomoedas. Como muitas contas criminosas não são tornadas públicas, o verdadeiro escândalo pode ser muito maior do que os 28 mil milhões de dólares.

À medida que as criptomoedas se tornam cada vez mais mainstream e o setor expande, uma questão preocupante surge: como proteger os investidores legítimos e ao mesmo tempo fechar as brechas que os criminosos usam nas plataformas para lavar dinheiro? Este desafio exige não só uma maior autorregulação e compromisso das plataformas, mas também uma atuação mais firme dos reguladores.

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