## A lógica profunda do fluxo global de commodities: Por que o superávit comercial da China continua a subir



Em 2025, o superávit comercial de bens da China atingiu 1,2 triliões de dólares, e esse número não reflete a tradicional explicação econômica de "demanda interna insuficiente e excesso de capacidade", mas sim um mecanismo de funcionamento comercial global completamente diferente.

**A importação de matérias-primas já atingiu o teto, enquanto a demanda global pelos produtos fabricados na China continua a crescer**

Para entender as verdadeiras causas do superávit comercial, é preciso primeiro analisar o lado das importações. Como supercomprador global de recursos minerais, a participação da China nas importações é impressionante: carvão representa 35% do mercado mundial, minério de ferro mais de 60%, cobre cerca de 70%, e produtos relacionados a terras raras mais de 80%. Exceto pelo petróleo, devido à competição global, os demais commodities são, de fato, comprados majoritariamente pela China.

Esse volume de importações já atingiu o ponto máximo. Países como Venezuela e Irã enviam cerca de 80% de sua produção de petróleo para a China, sem espaço para crescimento adicional. Quanto ao minério de ferro, esse tipo de produto básico industrial movimenta mais de 100 bilhões de dólares por ano em transações, e as importações já estão saturadas — embora a população chinesa represente um sexto da mundial, a demanda industrial já ultrapassa em muito o que a proporção populacional sugeriria.

Por outro lado, a história do lado das exportações é completamente diferente. A demanda global por produtos fabricados na China continua a subir, e ainda não atingiu a saturação. Um exemplo típico é a indústria fotovoltaica: em 2025, a demanda global por energia solar deve atingir cerca de 630 GW, sendo que a China responde por 290 GW, ou 46%. Isso significa que outros mercados globais ainda precisam de 370 GW — um mercado enorme e em expansão.

**A escala de capacidade já supera a demanda global, mas isso não é um problema de demanda interna**

A capacidade produtiva da manufatura chinesa é surpreendente. Mais da metade da capacidade industrial global está na China, e em alguns setores essa proporção chega a mais de 90%. Por exemplo, na indústria automotiva, com base na capacidade planejada por empresas e cidades, a China teoricamente poderia produzir 100 milhões de veículos por ano, superando a demanda global total.

No entanto, é importante esclarecer um equívoco comum: isso não ocorre por causa de uma demanda interna insuficiente. Pelo contrário, a capacidade da China foi projetada para atender ao mercado global. Independentemente das oscilações na demanda doméstica, a disposição de compra global por produtos chineses continua a crescer — porque as pessoas querem bens de qualidade a preços acessíveis para melhorar sua qualidade de vida.

**A fórmula independente do superávit comercial: demanda global menos importação de matérias-primas**

Pode-se criar um modelo simplificado para entender esse fenômeno:

**Superávit comercial de bens da China = Demanda global por produtos manufaturados na China - Importação de matérias-primas pela China**

Nesse modelo, a importação de matérias-primas já se tornou uma constante — com estoques suficientes e sem perspectivas de crescimento. A demanda global por produtos chineses, por sua vez, é uma variável que ainda está em ascensão. O resultado é que o superávit continua a se expandir.

Vale notar que essa lógica é totalmente independente da demanda interna da China. Os fabricantes, buscando lucro, continuarão a exportar enquanto houver demanda, independentemente de prejuízos ou lucros no mercado interno. A força de compra global determina o lado direito dessa equação, e não o consumo de famílias ou empresas chinesas.

**Quão "excessivo" é um superávit de 2 trilhões de dólares?**

Atualmente, um superávit de 1,2 trilhão de dólares representa cerca de 1% do PIB global, e há espaço para dobrar esse valor. Mesmo que suba para aproximadamente 2% (cerca de 2 trilhões de dólares), isso não seria insustentável na estrutura econômica mundial. Os verdadeiros limites não são políticas ou demanda interna, mas sim o poder de compra real do mundo pelos produtos chineses — esse limite ainda está longe de ser atingido.

Essa lógica demonstra que a posição comercial da China decorre da realidade da divisão global de indústrias: os fornecedores de matérias-primas fornecem recursos, enquanto a China os transforma em bens necessários ao mercado mundial. A existência do superávit reflete, essencialmente, o resultado inevitável dessa organização de papéis.
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