USAT joga com três cartas, por que razão o Tether precisa urgentemente de um "gêmeo legal"

Autor: Peggy, Lin Wanwan, BlockBeats

A ativo mais estável do mercado de criptomoedas, é um dólar sem identidade.

Nos últimos dez anos, o USDT, com ativos de 170 bilhões de dólares e liquidez omnipresente, transformou-se na “factual dollar” do mundo cripto. Mas quanto mais bem-sucedido, mais aguda fica a ansiedade de identidade: um dólar sem respaldo americano é sempre uma vulnerabilidade.

Nos últimos anos, Circle solicitou licença de banco fiduciário, Paxos construiu uma rede global de liquidação, Visa e Mastercard também aumentaram seus esforços em liquidação com stablecoins. Em comparação, a Tether permaneceu na narrativa de “império sombra offshore”.

Sob pressão regulatória e competição, em setembro de 2025, a matriz da USDT, Tether, finalmente apresentou uma nova resposta: USAT. É a primeira tentativa de preencher aquela lacuna de identidade que há muito tempo faltava.

Ao mesmo tempo, a Tether nomeou Bo Hines, de 29 anos, ex-assessor da Casa Branca, como CEO. Há dez anos, ele era uma estrela do time de futebol americano de Yale; hoje, foi colocado na arena mais sensível do mercado financeiro global, tornando-se a “cara legal” da Tether nos EUA.

Hines não foi uma nomeação de surpresa. Em janeiro de 2025, a Casa Branca criou o Conselho de Consultoria de Ativos Digitais do Presidente, e seu nome estava na lista de diretores executivos. Com apenas 28 anos, ele participou na elaboração do projeto de lei do “GENIUS Act”, que estabeleceu as bases para o quadro regulatório de stablecoins nos EUA. Poucos meses depois, ele deixou o cargo na Casa Branca e ingressou na maior emissora de stablecoins do mundo, a Tether, assumindo a missão de “expandir o território” no mercado americano.

Para a Tether, essa é uma estratégia de imersão profunda no sistema político e regulatório dos EUA. A entrada de Hines é tanto uma jogada em Washington quanto o primeiro passo para corrigir proativamente a imagem de “império sombra”.

Mas isso é apenas o começo. O que realmente pode dar a USAT uma chance de se libertar da impressão de “clone offshore do dólar”, é o conjunto de estratégias de conformidade por trás dela: desde a introdução de recursos políticos e econômicos de alto nível nos EUA, até a conexão com o sistema financeiro tradicional, a Tether tenta usar três cartas para inserir-se na narrativa regulatória e na lógica do mercado de capitais dos EUA.

A emissão do USAT não é apenas uma expansão na cartografia dos stablecoins. Ela representa o início de uma construção de um mecanismo de “duplo corpo legal” para a Tether: deixando de ser apenas uma ponte de fundos global, para se reinventar como uma entidade compatível dentro da ordem financeira americana.

O nascimento do duplo corpo legal, as três cartas do USAT

Nos últimos anos, os stablecoins tornaram-se os ativos mais delicados da história financeira. Não são exatamente dólares, nem completamente criptomoedas, mas nos últimos cinco anos, infiltraram-se em todos os cantos do mundo. A Tether, avaliada em cerca de 500 bilhões de dólares, construiu com o USDT um vasto sistema de “dólar sombra”: na América Latina, é a linha de vida para remessas de trabalhadores; na África, substitui a moeda local inflacionada; no Sudeste Asiático, tornou-se ferramenta de liquidação para comércio eletrônico transfronteiriço.

No entanto, como maior fornecedora desse sistema, a Tether sempre operou na margem da regulação. Auditorias ambíguas, estruturas offshore complexas, sombras de lavagem de dinheiro e sanções, fizeram dela uma etiqueta de “império sombra”. Para os reguladores americanos, a existência da Tether é um paradoxo: por um lado, ela impulsiona a globalização do dólar; por outro, é vista como um risco sistêmico potencial. Um “dólar digital” de circulação global, sem um respaldo legal americano.

Essa dissonância de identidade finalmente forçou a Tether a apresentar uma solução. Em setembro de 2025, lançou o USAT, voltado especificamente ao mercado dos EUA. Não se trata de uma simples atualização, mas de uma experiência com três cartas: pessoas, dinheiro e sistema. A Tether aposta nessas três etapas para ver se um dólar sombra pode ser aceito na narrativa americana.

Primeira carta: pessoas

A primeira carta do USAT é a pessoa, o respaldo político de Bo Hines.

Bo Hines, 29 anos. Na universidade, foi receptor titular do time de futebol de Yale. Uma lesão encerrou sua carreira esportiva precocemente, e ele entrou na política.

Bo Hines (de roupa vermelha) jogando futebol, fonte: Yale Daily News Em 2020, candidatou-se ao Congresso pelo Partido Republicano, sem sucesso. Depois, entrou na política de políticas públicas. Desde 2023, Hines atua na Casa Branca no Conselho de Consultoria de Ativos Digitais, posteriormente promovido a diretor executivo. Segundo informações públicas, participou na elaboração do projeto de lei “GENIUS”, a primeira proposta de legislação de regulamentação de stablecoins nos EUA, que serviu de base para várias propostas posteriores.

Em agosto de 2025, Hines deixou a Casa Branca. Em 19 de agosto, a Tether anunciou sua nomeação: Hines entraria na empresa como consultor estratégico, responsável por conformidade e comunicação de políticas no mercado americano. Na mesma nota, a Tether afirmou que lançaria nos meses seguintes uma stablecoin regulada nos EUA — o USAT.

Hines discursando em evento, fonte: CCN Menos de um mês depois, em setembro de 2025, a Tether anunciou o lançamento do USAT e nomeou oficialmente Hines como seu primeiro CEO. Isso significa que ele liderará a implementação do produto e a interface regulatória no mercado americano.

Informações públicas indicam que essa é a primeira vez que a Tether incorpora um executivo com experiência na Casa Branca na sua gestão. Antes, sua equipe era composta principalmente por profissionais de finanças ou tecnologia, sem experiência direta em políticas públicas americanas.

A entrada de Hines faz com que o USAT esteja desde o início ligado ao ambiente regulatório dos EUA.

Segunda carta: dinheiro

A segunda carta é a credibilidade do respaldo financeiro da Tether. Nos últimos anos, a composição das reservas do Tether sempre foi alvo de controvérsia. Documentos de auditoria iniciais mostraram que as reservas do USDT continham muitos títulos comerciais, empréstimos de curto prazo e uma carteira de ativos de difícil rastreamento. Esses ativos careciam de transparência, alimentando as dúvidas sobre se a Tether realmente tinha uma moeda por um dólar.

No projeto do USAT, a Tether tenta dissipar essas dúvidas. Em setembro de 2025, o anúncio revelou que a custódia das reservas do USAT ficaria a cargo da Cantor Fitzgerald. Essa corretora fundada em 1945 é uma das principais contrapartes do Tesouro dos EUA, atuando na emissão e distribuição de títulos do governo americano, com forte credibilidade em Wall Street.

Entrada do escritório da Cantor Fitzgerald em Nova York, fonte: Getty Images Segundo o plano da Tether, a Cantor Fitzgerald garantirá que as reservas do USAT sejam majoritariamente compostas por títulos do Tesouro dos EUA. Isso significa que o valor do USAT será sustentado por ativos de alta liquidez e confiabilidade, diretamente ligados ao mercado de títulos do governo americano, eliminando a dependência de estruturas offshore complexas.

Esse arranjo fortalece a ligação da Tether com o sistema financeiro dos EUA: de uma fornecedora de “dólar sombra” a uma distribuidora na cadeia de títulos do governo. Segundo informações públicas, essa é a primeira vez que a Tether inclui explicitamente um contrapartida de Wall Street como parceiro central em seu produto.

Terceira carta: sistema

A emissão e conformidade do USAT serão gerenciadas pelo banco digital Anchorage Digital Bank. Essa é uma das primeiras instituições de ativos digitais a obter licença de trust federal nos EUA, uma das poucas autorizadas a operar sob supervisão direta do regulador federal. Diferentemente do USDT, que depende de estruturas offshore, as reservas e auditorias do USAT estarão integradas ao sistema regulatório americano. Isso atende às exigências do “Genius Act” para emissão de stablecoins e representa uma espécie de “registro de identidade” regulatória para a Tether.

A localização também é estratégica. A sede do USAT será em Charlotte, na Carolina do Norte, o segundo maior centro financeiro dos EUA, sede de bancos tradicionais como Bank of America. Em contraste com Nova York ou Washington, Charlotte oferece um ambiente financeiro forte, mas relativamente distante do foco regulatório. Esse detalhe indica que a Tether busca não apenas uma mudança na estrutura regulatória, mas uma implementação prática no dia a dia.

Centro corporativo do Bank of America em Charlotte, fonte: SkyscraperCenter Assim, o USAT não é apenas uma nova stablecoin, mas uma formalização do relacionamento da Tether com o mercado americano. A presença de Bo Hines na política, Cantor na finança e Anchorage na regulação compõem uma estratégia de conformidade completa, elevando a Tether de “fornecedor de dólar sombra” para uma participante “regulamentada”.

Porém, até que ponto essa transformação será bem-sucedida, ainda é uma questão em aberto. A essência da Tether permanece a mesma: sua operação continua globalizada, sua estrutura offshore, e o fluxo de fundos, complexo. O USAT pode fornecer uma identidade americana, mas não mudará imediatamente a percepção do mercado sobre a Tether.

O lançamento do USAT marca uma extensão na atuação da Tether: o dólar sombra começa a bater na porta de Wall Street.

O mercado de stablecoins vai passar por uma revolução?

Nos EUA, a nova iniciativa da Tether mira diretamente na Circle e seu USDC.

Nos últimos anos, o USDC tem sido o símbolo do mercado regulado nos EUA. Mas, em comparação com o USDT, seu tamanho e circulação são menores. Em setembro de 2025, seu valor de mercado era de cerca de 70 bilhões de dólares, representando 25-26% do mercado de stablecoins.

Embora seja um terço do tamanho do USDT, o USDC, com parceria exclusiva com Coinbase e respaldo de instituições como BlackRock, construiu uma confiança sólida em Washington e Wall Street.

A Circle até recomprou, em 2024, as ações da joint venture Center, tornando-se a única emissora do USDC, fortalecendo seu controle. A narrativa implícita do USDC sempre foi: conformidade nos EUA = segurança, offshore = risco.

Porém, essa estratégia também dá espaço para a pressão da Tether.

O CEO da Tether, Paolo Ardoino, enfatizou várias vezes que o USAT tem o objetivo de desafiar o monopólio potencial do USDC nos EUA.

Ele afirmou: “Se não houver USAT, o mercado de stablecoins nos EUA pode ficar nas mãos de poucas instituições.” Em outras palavras, a missão estratégica do USAT não é apenas uma atualização de produto, mas uma resposta direta ao avanço do USDC.

CEO da Tether, Paolo Ardoino, falando na conferência de Bitcoin em Las Vegas 2025, fonte: Nasdaq O lançamento do USAT é uma tentativa de usar seu peso para preencher a lacuna de conformidade. O USAT visa fazer com que a Tether, pela primeira vez, combine volume e conformidade, ameaçando diretamente a barreira de proteção do USDC.

Se Circle representa uma conformidade top-down, focada no mercado doméstico, a Tether, por meio do USAT, constrói uma narrativa dupla: mantém uma vasta rede de “império cinza” global, enquanto cria uma “versão conformidade” no mercado americano.

No futuro, o mercado de stablecoins pode evoluir para um “modelo de duas pistas”: o USDT continuará forte na América Latina, África e Sudeste Asiático, enquanto o USAT se concentrará no mercado doméstico e em clientes institucionais. Essa estrutura pode consolidar a vantagem da Tether em mercados emergentes, ao mesmo tempo em que atrai mais fundos institucionais, impulsionando uma nova fase de expansão.

Para a Tether, isso não é apenas lançar uma nova moeda ou avançar uma listagem, mas uma transformação de identidade. Se conseguir listar no mercado de capitais dos EUA, poderá se libertar completamente da etiqueta de “império sombra” e entrar no palco financeiro global como uma “empresa de dólares”.

Porém, a ofensiva da Tether certamente provocará respostas dos concorrentes. Circle provavelmente acelerará parcerias com reguladores e instituições para reforçar sua posição de conformidade do USDC; Paxos, com suas licenças, pode ampliar sua atuação em pagamentos e liquidação transfronteiriça. Grandes bancos tradicionais também demonstram interesse, com Visa, Mastercard e bancos de Wall Street explorando como integrar stablecoins em seus sistemas existentes. Pode-se prever que o lançamento do USAT não seja apenas uma mudança de identidade da Tether, mas o gatilho de uma nova rodada de competição no mercado de stablecoins.

Epílogo

O lançamento do USAT oferece uma oportunidade inédita à Tether, mas também traz novos riscos. O mercado acreditará que um “império sombra” tão questionado pode realmente se separar por meio de uma versão legalizada?

Histórico mostra que a transição de forças cinzentas para o “branco” não é inédita.

No final do século XIX, a sociedade americana tinha grande desconfiança do capital financeiro, e a família Morgan era vista como uma “oligarquia financeira”. Embora Morgan não fosse ilegal, na época sem regulamentação moderna, seu enorme poder e influência eram considerados uma forma de “sequestrar o interesse público”, tornando-se uma “força cinzenta”.

Porém, o banqueiro J.P. Morgan mudou essa imagem com ações concretas: ajudou o governo a emitir títulos, resolver crises fiscais, reestruturou dívidas de ferrovias. Com o tempo, passou de “oligarquia do capital” a “agente financeiro do Estado”.

A estratégia atual da Tether de comprar títulos do Tesouro dos EUA e promover stablecoins conformes é semelhante à de Morgan, trocando ajuda ao Estado por legitimação.

Antiga sede da família Morgan em Wall Street, fonte: NYC Urbanism Porém, nem toda “força cinzenta” consegue essa transição com sucesso.

Como maior plataforma de criptomoedas do mundo, a Binance inicialmente operou quase totalmente offshore, evitando regulações. Nos últimos anos, começou a solicitar licenças na França, Abu Dhabi, tentando se tornar mais conformada, e tentou entrar no mercado americano. Mas enfrentou forte resistência regulatória, tendo que reduzir operações. Essa experiência mostra que, para uma força cinzenta, a transição para o “branco” não será fácil.

O futuro da Tether permanece incerto. Transparência de reservas, conformidade e interação com reguladores serão os principais indicadores a serem observados nos próximos anos.

Ao mesmo tempo, a competição já se intensifica.

Circle busca licença de banco fiduciário nacional nos EUA para reforçar sua conformidade e consolidar sua relação com reguladores e investidores institucionais; Paxos revela aumento na demanda por infraestrutura de stablecoins e lançou uma “rede global de dólares” com Mastercard, tentando expandir o uso do dólar estável; Visa também amplia suporte a liquidações com stablecoins, integrando esses produtos ao sistema de pagamento existente. Além disso, a Plasma tenta incorporar stablecoins na infraestrutura de pagamentos globais via liquidação em cadeia e pagamentos transfronteiriços.

O mercado de stablecoins está saindo de uma fase de crescimento selvagem para uma competição mais intensa e regulada.

O USAT faz a primeira tentativa da Tether de apresentar uma identidade formal em Washington. O verdadeiro teste não está na blockchain, mas na mesa de reuniões: quem consegue deixar sua marca na agenda regulatória, quem terá direito de definir a próxima geração de dólares digitais. Se o império sombra poderá realmente entrar na luz, essa será a maior incógnita do criptofinanciamento.

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